23 set 2014

Feminismo, solidariedade e revolução

Atuais obstáculos para a superação da opressão

(Texto também disponível para download)

Preâmbulo

Por se tratar de um texto de críticas internas e, de certa forma, também auto-crítico, vejo a necessidade de estabelecer primeiramente alguns postulados a respeito da luta socialista e feminista da qual participo, e em relação a como a opressão e a experiência de sobreviventes devem ser abordadas.

  • A experiência de opressão nunca deve ser minimizada ou normalizada por companheiros e companheiras de luta.
  • O binário opressor/oprimido muito dificulta o diálogo de construção da superação da opressão (em materialidade e em sua lógica subjetiva e de consciência).

o   A noção do opressor é melhor estabelecida ao tratar dos agentes do sistema de opressão, enquanto pessoas de dentro da luta de esquerda devem ser melhor entendidas como aliadas devido a sua busca pela desconstrução de seus poderes e privilégios adquiridos por pertencer a identidades, categorias, status, e classes dominantes.

o   Pessoas que que sofrem e são sujeitas à opressão, marginalização, exclusão, e exploração por pertencer a identidades, categorias, status, e classes dominadas são entendidas por oprimidas, já que sua luta contra a opressão é contínua. Porém, no contexto das pessoas já engajadas em sua auto-libertação, seu processo contínuo de cura, e, quando na esquerda revolucionária, na luta pela superação da opressão são melhor entendidas como sobreviventes. Apesar de, neste texto, haver alternância entre sobrevivente e oprimido, faço a ressalva de encorajar companheiras e companheiros em luta a buscar a entender suas posições como sobreviventes, em vez de oprimidos, quando possível.

o   Enfim, apesar do espaço limitado neste texto, reafirmo que devemos rejeitar a coisificação das categorias de opressor(a) e oprimido(a), já que o processo de transformação e superação da opressão corresponde aos espaços liminares de conscientização, os quais se não encontram nem inteiramente na função opressora e nem inteiramente na função oprimida. No mais, as sobreposições das diversas experiências humanas impedem que seres dinâmicos e históricos sejam definidos amplamente, sem análise crítica, como um ou outro.

  • A presença de espaços auto-organizados para grupos que vivenciam a opressão em primeira mão é essencial para o processo de cura de sobreviventes e para o estreitamente de laços de solidariedade entre si. A crítica posterior sobre como espaços auto-organizados são, por vezes, mal utilizados como instrumentos segregadores na construção da luta revolucionária não minimiza, de forma alguma, a existência e fortalecimento desses espaços. Ao contrário, a crítica aqui apresentada visa acrescentar que a luta pela superação da opressão necessita que espaços auto-organizados cresçam através do empoderamento coletivo ao complementarem espaços primários voltados para a construção coletiva (entre sobreviventes e aliados, entre protagonistas simbólicos – sujeitos da luta – e todos os agentes em solidariedade). Em suma, a luta feminista não existe sem os espaços auto-organizados, porém, se estes forem os únicos espaços de construção e diálogo existentes, a luta será enfraquecida.
  • Por último, gostaria de reconhecer que o texto utiliza a linguagem homem e mulher, mas que isso não pretende tornar invisível a existência de pessoas trans na militância. A posição da autora (aberta para o diálogo) é que a luta feminista também prega o direito de auto-determinação de gênero e sexo, e que a inclusão em uma categoria ou outra procede dessa auto-determinação. O debate aqui realizado não adentra sobre a opressão específica vivenciada por mulheres trans e homens trans (ou pessoas que se identificam como trans-femininas ou trans-masculinas), porém busca enfatizar que a inclusão em feminismo que também é humanista abraça a luta LGBT e garante que a busca por auto-determinação não seja reduzida ao protagonismo liberal (ou uma hierarquia de opressões) também neste movimento devido às intersecções de nossas posições em relação às estruturas de poder. Reconheço, afinal, que esse debate precisa ser mais contemplado para promover a inclusão LGBT nos espaços feministas de maneira proveitosa e que não caia na armadilha de uma disputa representacional de identidades (política que será criticada abaixo).

Variedades do feminismo e a essência da luta contra o patriarcado

A luta feminista possui uma história complexa, e seu status atual em muito se difere dos tempos em que Mary Wollstonecraft fazia propostas cujo conteúdo radical partia da ideia de que mulheres e homens são iguais (‘sob os olhos de Deus’, escrevia no século XVIII). Dentro da epistemologia feminista, dá-se a entender que o movimento feminista recente pode ser classificado em fases (ou ‘ondas’) de mudanças e acúmulo político, prático, e teórico nas últimas décadas. Este acúmulo promoveu a evolução de categorias dentro do movimento e a reorganização da ontologia feminista para entender que sua luta, apesar de encabeçada por mulheres, compreende uma variedade de opressões que se fortificam dentro do patriarcado. Daí, a inclusão da luta da mulher negra e da luta LGBT (e variantes), além de outras, na pauta feminista. A transição entre a segunda e a terceira onda do feminismo indicou que o inimigo não é o homem em si, apesar de que a opressão patriarcal é em sua maioria perpetrada por homens, mas o patriarcado como total estrutura que promove a masculinidade tóxica e a dominância masculina, em suas expressões hegemônicas de sexo, gênero, e sexualidade, sobre a sociedade. Assim, a luta feminista não é apenas a luta da liberação das mulheres, mas a luta contra o patriarcado. Já que o objeto majoritário do patriarcado é historicamente as mulheres, não há dúvidas que a luta feminista deve ser encabeçada pelas mulheres em sua função como sujeito revolucionário. O mesmo se diz da luta pela libertação negra e contra o racismo, encabeçada por negros e negras, e assim por diante.

Além desses modelos, há de identificar o fato de que o feminismo não existe ou faz propostas em isolamento e, portanto, assimila-se ou colabora com outras linhas de pensamento, projeto político (e ideologia). Nosso maior interesse se dá na formação de influência do feminismo liberal e do feminismo marxista. O olhar superficial é capaz de equalizar as duas linhas baseando-se na síntese de que, afinal, o feminismo prega a igualdade de mulheres em relação a homens. Porém, uma análise baseada em história e totalidade aponta para a necessidade de livrar os projetos feministas dentro da Esquerda radical e revolucionária da influência insalubre da ideologia liberal, muitas vezes mascarada por uma nova ‘moralidade’ que se isola da possibilidade de crítica por abraçar a nobre noção do empoderamento das pessoas e povos marginalizados. Este texto apresenta uma síntese dos argumentos contra o empoderamento liberal que se alimenta de ressentimento e o foco particular na resistência à opressão em vez de sua superação. Como já enfatizado, a pauta feminista é complexa e o texto não possui a ambição de desenvolver um projeto detalhado da integração feminista marxista na luta revolucionária da esquerda, apenas indicar onde há perigosas prioridades e onde há possibilidade concreta para o avanço da luta. Assim, trata primariamente da subjetividade feminista dentro da esquerda e sua militância, enfatizando a metodologia de interação dentro da mesma, e caracterizando o feminismo como locutor da luta contra as várias opressões dentro do caminho socialista.

A redução da luta a questões de identidade e a armadilha do protagonismo liberal

A história nos mostra que o feminismo (e o feminismo negro) é responsável por melhor inserir a luta anti-opressão e temas de identidade dentro da luta revolucionária da esquerda, especialmente ao complementar as categorias marxistas tradicionais. O postulado aceito é que o feminismo marxista pertence à luta socialista, assim como a verdadeira luta socialista não é completa sem a luta feminista e anti-opressão. O feminismo e as várias lutas anti-opressão possuem um papel fundamental na libertação do oprimido, mais apropriadamente na geração de consciência que permite processos de auto-libertação do oprimido. Este elemento é muitas vezes referido como um processo de empoderamento. A necessidade de empoderamento de quem é marginalizado e oprimido é evidente na análise da hegemonia dos espaços sociais, em que homens brancos, heterossexuais, e da elite econômica possuem liberdade e autonomia para agir de acordo com seus interesses. Ao proporcionar momentos e oportunidades de empoderamento, o indivíduo e/ou seu grupo se tornam mais cientes de sua posição de exclusão e submissão e, com apoio prevista na abertura do espaço, podem retomar o mesmo e reestruturar as relações tradicionais de poder que antes eram reproduzidas.

É possível entender, então, o porque da ênfase em processos de empoderamento dentro das lutas da esquerda. É nossa obrigação promover espaços e momentos inclusivos que reconheçam a presença dos grupos pelos quais lutamos, e que perturbem o confortável status que agrega maior oportunidade de participação e influência àqueles que, mesmo entre nós na esquerda, usufruem das consequências históricas de nossas posições hegemônicas. Afim de descolonizar a influência destes, a importância de reconhecer os privilégios de cada um se faz necessária. Até este momento, encontramos elementos de um processo produtivo e inclusivo, o qual expõe relações de poder históricas na forma de classe, gênero, sexualidade, etnia, cor, sexo, religião, e demais posições. O objetivo, diria, é duplo: para aqueles que são aliados em coletividade dentro da Esquerda, trata-se da incorporação da inclusão como valor fundamental para a construção de solidariedade e da luta revolucionária em si; para a relação entre os oprimidos e os opressores atuantes na dominação contínua dos primeiros, sendo assim identificados como agentes opressores e alvos da luta, trata-se da reafirmação da existência dos oprimidos e da formação política destes que, por ventura de sua exclusão, urgentemente reconhecem na revolução sua necessidade humana mais básica. A pedagogia da libertação, que por também ser a pedagogia da autonomia insere o processo de libertação dentro do humanismo marxista, classifica o que até aqui chamamos de empoderamento como conscientização, justamente porque este processo implica a transformação de objeto em sujeito, mesmo que a transformação total da realidade e a abolição dos poderes de opressão ainda pertençam a um horizonte futuro.

Antes que eu prossiga para melhor estabelecer a relação entre sujeito e agência, a qual é fundamental para a transição da posição de resistência e oposição presente no “anti” para a posição revolucionária de transformação proposta pelo socialismo e o comunismo, devo problematizar as práticas de empoderamento que minimizam a conscientização (individual e coletiva) em favor de uma versão limitada de protagonismo. Faço isso, primeiramente, porque o entendimento original de protagonismo no marxismo (dado à classe proletária) era libertador justamente porque levava além da disputa de espaços particulares e da afirmação da autoridade epistêmica do oprimido, pois buscava o alcance da agência coletiva transformadora. Nesse sentido, o protagonismo é material e lida com os portadores da vontade coletiva revolucionária. Marx não tratava do proletariado como protagonista da história simplesmente porque este estava no centro das relações de exploração do capitalismo, mas sim porque, justamente por estar ao centro, possuía a capacidade de levante histórico para conectar as diversas lutas revolucionárias e seus agentes.

A outra forma de protagonismo que reconhecemos ser importante nos espaços da esquerda possui uma expressão simbólica, pois se trata da necessidade de inserir vozes previamente silenciadas nos ambientes de luta, de tal forma que as pautas pela libertação sejam centradas na vocalização de experiências e entendimento direto de como a opressão opera – diferente da noção de autoridade epistêmica, que será contestada posteriormente. Um exemplo seria o debate contra a violência sexual centrado nas vozes e experiências de sobreviventes desta (não vítimas, pois a luta colabora com o contínuo processo de cura e superação das sobreviventes em sua busca por transformação coletiva). Não significa, porém, que o debate exclua as vozes de aliados de maneira imperativa, apenas que especial destaque, apoio, e solidariedade sejam expressados em relação a aqueles e aquelas que podem relatar em primeira mão o impacto sofrido e que portam a memória histórica da importância da luta por um mundo sem opressões. Assim, o protagonismo pode ser um importante instrumento para a luta ao gerar reflexão, individual e coletiva, e a reautorização de espaços negados. O empoderamento dado pelo protagonismo neste contexto é o verdadeiro empoderamento pois contribui não apenas para a solidariedade aos sobreviventes e a formação de espaços para suas vozes, mas também contribui para o empoderamento coletivo nas lutas anti-opressão e socialista. Não é necessário, então, ressaltar que qualquer busca pelo protagonismo na esquerda deve ser sempre examinada para conferir que se trata da construção do protagonismo coletivo revolucionário, chave na luta materialista histórica, e, quando de faceta simbólica, do protagonismo como ponte de solidariedade entre aliados e sobreviventes em sua função de empoderamento coletivo. Assim, a busca por protagonismo na esquerda deve ser aquela embutida no processo de conscientização.

A deturpação da noção do protagonismo é encontrada quando se confundem as noções de sujeito e agência que acabam por se perder dentro de uma fórmula de protagonismo cravada no discurso do empoderamento individualista e que nega a análise crítica da maneira como a pessoa é feita sujeito e qual tipo de agência lhe é atribuída. Vemos, por exemplo, no contexto de projetos de microcrédito e de investimento local de instituições como o Banco Mundial, o discurso de empoderamento como justificativa para a chamada inserção de mulheres em suas sociedades locais como consumidoras e/ou empreendedoras. O processo é claramente de empoderamento (neo)liberal, uma vez que a subjetividade é configurada de acordo com a lógica do mercado e a agência é limitada pela função de exploração do capitalismo. A noção do empoderamento liberal infiltra o espaço da militância, não tratando aqui de opressor e oprimida (binário que virei a problematizar em breve) mas da construção coletiva da luta entre aliados, quando este empoderamento permanece a reproduzir a lógica do sistema de opressão. A lógica em si não é superada, apenas revertida.[i] De certa forma, a triste profecia da permanência da consciência ‘hospedeira” da lógica opressora sobre o oprimido (Freire, 2005, p. 37). No intuito de empoderar o oprimido em relação ao opressor, ou aliado investido em não mais oprimir conscientemente, a auto-libertação do oprimido é prejudicada ao enfatizar a definição de sua existência em relação à opressão.

A preocupação demasiada com o particular e com a priorização de repetitivos rituais de reconhecimento de privilégios em detrimento de avançar o debate coletivo é debilitante para a esquerda. No mais, impede a expansão da lógica da libertação porque enfatiza a lógica da opressão nos espaços internos de construção política. No binário imposto na noção limitada do feminismo como “movimento de luta das mulheres” (que remete à primeira onda do feminismo e partes da segunda), os homens de dentro da luta socialista são classificados simultaneamente como aliados e opressores, mesmo que busquem a auto-crítica contínua e sua própria conscientização para se desconstruírem como opressores. Isso ocorre devido à alta relevância do fato de pertencer a categorias, identidades, classes, e status que em seu coletivo oprimem. Falta discernimento que apesar do homem, em função tradicional, ser agente do patriarcado, homens aliados não aceitam essa agência e devem buscar desconstruí-la a todo momento. Quando o empoderamento particularista (oposto do empoderamento do protagonismo coletivo já discutido) da mulher oprimida é valorizado acima da construção da luta, esforços dos homens aliados são reconhecidos apenas de maneira tangencial, desde que estes se mantenham calados em suas alianças ao feminismo (tema ao qual retornarei adiante). Isso limita a capacidade dos homens aliados se reformularem como não-opressores. Ao internalizar o empoderamento, em vez de superar as inescapáveis contradições que afligem a militância através da solidariedade e da inclusão, a luta anti-opressão corre o risco de empoderar somente no sentido liberal; isto é, o foco exagerado na possível transferência direta do semblante de um poder particular de um individuo e/ou grupo para outro pela razão principal de ressarcir o que lhe(s) foi negado historicamente. Não há abolição, pois a lógica da exclusão e do silêncio de uns em relação a outros é perpetuada. O resultado, de acordo com bell hooks, é a perpetuação de uma ideologia separatista dentro do feminismo (Hooks, 1984, p. 73) através da inversão da ideologia dominante.

Identificamos este obstáculo liberal em práticas que perdem seu potencial pedagógico e transformador porque insistem na reparação do ressentimento. Ressentimento é entendido aqui na maneira como é empregado por Nietzsche e formulado por Wendy Brown em sua exposição das falhas do discurso isolador da política de identidade (que problematicamente, reconhecemos, chega a dominar aspectos da pauta anti-opressão da esquerda radical). Para Brown, a dificuldade em construir a partir do ressentimento se dá no fato que a libertação do sujeito é retardada pelo demasiado foco em sua própria submissão, visto que o sofrimento é entendido sob a lente da ‘virtude social’ que resume em ‘privilégio’ o estado auto-recriminador de qualquer um que se encontre fora de tal experiência negativa (Brown, 1995). Para Rosemary Hennessy, o resultado é a deterioração do oprimido e da oprimida em ‘identidades mortas,’ pois restringem o potencial de mudar as estruturas de poder ao prejudicar a habilidade de imaginar e promulgar uma visão mais abrangente (universal) do futuro (Hennessy, 2000, p. 228). Ao fim, os sujeitos são menos agentes porque sua concepção de agência é limitada à existência do opressor e da opressão vivenciada. Não se trata de reflexão conscientizadora sobre a opressão a ponto de transcender sua lógica na direção da solidariedade. Então, mesmo que sujeitos por seu auto-reconhecimento e a busca do empoderamento (que impede o retorno ao objeto), já se fazem sujeitos reificados pela lógica individualista e particularista liberal. Assim, essa forma de empoderamento estruturada pela opressão e pelo seu decorrente ressentimento corre o risco de causar “paralisia política” (Brown, 1995, p. 71) enquanto a busca por auto-determinação e auto-afirmação (na linguagem de Brown e Nietszche) através da conscientização poderia, em sentido oposto, alcançar o verdadeiro empoderamento da libertação de consciência, e por fim, da materialidade.

Exemplos dessa prática se encontram quando espaços auto-organizados são vistos não como espaços complementares mas como espaços de exclusão. Enquanto em sua posição libertadora espaços auto-organizados são essenciais para garantir autonomia e engajar mulheres e/ou indígenas, negros e negras, entre outros, pois proporcionam oportunidades de compartilhar experiências, estabelecer laços solidários, e refletir sobre a origem de sua opressão. Na prática, porém, se a necessidade de afirmar a centralidade das experiências compartilhadas nesses espaços é desvirtuada como fonte de autoridade epistêmica absoluta do oprimido, os espaços auto-organizados passam a se relacionar de maneira anti-dialógica com outros espaços de construção coletiva. A autoridade epistêmica do espaço do oprimido garante que, nos espaços mútuos, a análise crítica seja subjugada à verdade incontestável produzida no espaço anterior seleto. Além do mais, a super valorização da autoridade epistêmica ao elevar a experiência da oprimida a nível de base teórica sem submetê-la à crítica necessária (muitas vezes por confundir o ato da reflexão crítica com as atitudes opressoras de duvidar ou descartar os relatos de opressão) falha desde o princípio, baseado no fato de que experiências são complexas, interpretativas, e sempre políticas (Hopkins, 1998, p. 49). Portanto, resta a mim apontar duas ocasiões que fazem o aceite da autoridade epistêmica como fonte absoluta de ação particularmente problemático.

Primeiro, a autoridade epistêmica, quando entendida de maneira mecânica, bloqueia a crítica construtiva e a intervenção teórica sobre a experiência do oprimido, esquecendo-se que, assim como existe a consciência opressora, também existe a consciência oprimida, ambas sujeitas à hegemonia da opressão. O diálogo aberto, sem constrangimentos, possibilita que a consciência oprimida seja examinada de acordo com a síntese histórica para que haja movimento cognitivo do particular para o universal (o que será melhor elaborado posteriormente).

Há também de ser problematizar, nesse sentido, conceitos mecânicos aplicados na determinação do processo de exclusão dentro da militância. Espaços de solidariedade entre mulheres são bem-vindos, exceto se utilizados como instrumento faccionalista dentro da militância. Vejamos, ao separar os homens das mulheres em todas instâncias de potencial conscientizador, dificulta-se a possibilidade da reflexão dos homens sobre seu papel dentro do patriarcado. Repito que estamos lidando não com homens fora da esquerda, atuantes como dominadores do patriarcado e que reforçam, conscientemente ou não, a estrutura de opressão como agentes da mesma. Lidamos, ao contrário, com homens aliados, os quais, quando já não avançados em sua atuação feminista em solidariedade com as mulheres, buscam ao menos encontrar meios para sua própria conscientização e seu subsequente benefício a todos. A conscientização, como já estabelecido, não é internalizadora como o empoderamento liberal, e sim parte da construção da autonomia crítica do indivíduo em um movimento para fora, para o universal.

Exceto quando em espaços auto-organizados femininos estruturados especificamente para o crescimento de laços emocionais e solidários e a busca de apoio e conforto, pouco se aproveita da segregação entre homens e mulheres a respeito de debates da luta feminista e de possíveis medidas a serem tomadas pelos homens em solidariedade ou em reflexão crítica corretiva de suas ações. Ora, se os homens da militância também são lutadores da esquerda revolucionária, deve ser permitido a eles engajar na sua própria conscientização e libertação na posição de opressores e oprimidos de acordo com seus contextos. A exclusão dos homens também nos espaços mútuos, pois devem se calar para não retirar o espaço das mulheres, é debilitante porque impede a formação da laços solidários entre lutadores e lutadoras, gera constrangimento ao mecanicamente atribuir a um homem a função de opressor devido à sua identidade (triste consequência do binarismo ortodoxo opressor/oprimido, do qual devemos escapar), e demonstra cegueira política ao impedir contribuições por vezes produtivas para o avanço da luta revolucionária simplesmente porque a voz do locutor remete ao poder histórico masculino dentro do patriarcado. O foco passa a ser a culpa histórica do locutor, e não a responsabilidade que ele tem diante da luta.

Observa-se também a característica esquizofrênica de um feminismo exclusivo dentro da esquerda que entende os companheiros como aliados ao mesmo tempo que os atira na fogueira em ressentimento devido à visão distorcida da experiência de opressão como virtude social para o protagonismo liberal. Tais situações devem muito ao binarismo ortodoxo da opressão. Não são poucos os relatos de machismo perpetrados por companheiros na militância que, livres da influência do ressentimento podem ser interpretados como desentendimentos invés de transgressões machistas. Também é fato a farta atitude machista e/ou masculinizada de companheiras que se fazem imunes à crítica porque sua identidade lhes propicia com virtude social inquestionável.[ii]

Segundo, a imposição de verdades incontestáveis e da retomada de espaço no momento coletivo pode gerar danos à solidariedade da militância e da capacidade de incluir sem excluir, ou seja, de retirar o oprimido das margens sem que aqueles identificados como de maior privilégio sejam relegados às mesmas margens dentro da lógica da exclusão. É possível que, em uma militância solidária, a inclusão seja promovida de modo que os oprimidos conquistem voz, agência, e influência enquanto os aliados se reconfigurem de acordo com voz, agência, e influência diminuídas não por punição, mas por consequência clara do respeito à inclusão. Requere-se aqui alta sensibilidade à configuração do espaço, proatividade quanto à garantia da inclusão, e reflexão contínua por parte de todo o grupo. Não se trata de um processo fácil, pois vivemos a realidade pré-revolucionária, ainda que nossas atitudes sejam já revolucionárias ao rejeitar a inversão de poderes.

A garantia de espaço para o oprimido historicamente dentro da esquerda não deve ser promovida através do silêncio daqueles cujas posições já lhes traziam as mesmas garantias, ainda mais visto a necessidade de superar o binário da opressão na construção da coletividade da esquerda. O protagonismo liberal se baseia na sobreposição de uns em relação a outros e existe somente como categoria particular. Como a luta da esquerda é universalista, ela requer categorias também universais, como sujeito, agência, e solidariedade, as quais verdadeiramente protagonizam a luta do oprimido de maneira coletiva e crítica.

Quem é o sujeito do feminismo?

Existem dois significados de sujeito: o sujeito ontológico e o sujeito revolucionário fruto de sua elevação do posto de objeto. O protagonismo liberal reifica o sujeito da luta e limita sua agência. Já o protagonismo marxista em nada se difere do sujeito-agente revolucionário, incluindo o sujeito ontológico e aliados. Portanto, é importante lidar com estas noções de sujeito e de agência no objetivo de reafirmar a perspectiva da luta feminista dentro da esquerda. Como já mencionado, a opressão histórica das mulheres como objeto do patriarcado as coloca na posição de sujeito ontológico do feminismo, mesmo que isso implique a transformação de cada mulher como sujeito revolucionário e com agência. No entendimento produtivo da categoria, pode-se dizer que as mulheres são assim líderes da luta feminista. Parecem-me estranhas as preocupações às vezes relatadas de que companheiros de militância, em suas falas e atitudes na construção da luta revolucionária, estão tentando protagonizar a luta das mulheres. Se o protagonismo é dado no sentido próprio de sujeito no marxismo, tanto no sentido de sujeito ontológico protagonista quanto de sujeito vindo da elevação do objeto à capacidade de sujeito, qualquer intenção desta natureza é claramente em vão. Se o medo dos homens protagonizarem a luta das mulheres vem do protagonismo liberal, já estabelecemos os problemas desta concepção, a qual não deve ser levada adiante ao impedir a formação de uma base solidária mais abrangente que certamente fortalece a luta. Enquanto homens da esquerda também se fazem sujeitos em sua conscientização e libertação perante a totalidade da opressão e exploração, o entendimento de sujeito revolucionário que os inclui não é diretamente o do feminismo, mas o do socialismo e eventualmente comunismo.[iii]

É importante indicar que esta noção de sujeito apresentada é hegeliana em sua essência e, portanto, se realiza dentro de um processo dialético. Isto significa que o sujeito está em constante determinação e negação em sua própria transformação. É por isso que rejeitamos quaisquer tentativas de reduzir as experiências materiais e afetivas de opressor e oprimido a um binário que reifica pessoas a estas categorias, assim distraindo do importante fator circunstancial das estruturas de opressão. Como Marcuse explica, para Hegel o sujeito consciente possui, como sua noção, a liberdade (Marcuse, 1941, p. 155). No materialismo histórico, o processo é dialeticamente invertido: a liberdade deve partir da consciência para a materialidade. É disso que tratamos ao estabelecer que o sujeito também precisa afirmar sua agência, seu poder de ação histórico de intervir no processo revolucionário.

Portanto, uma categoria de importância na participação de homens aliados ao feminismo diz respeito à agência. Esta agência pressupõe que, apesar do homem não ser o sujeito ontológico do feminismo em si, sua conscientização o transforma em um sujeito feminista em sua perspectiva e posição. Mesmo que não sujeitos/protagonistas do feminismo, os homens aliados da esquerda, enquanto sujeitos em sua conscientização, recebem a tarefa de agir tanto no âmbito radical do “anti,” no enfrentamento da opressão, como no âmbito revolucionário da construção de uma sociedade de liberdade (“a segunda negação”). Esta agência não deve ser limitada à marginalidade por questões de protagonismo ou por se submeter a uma noção liberal de solidariedade que se contenta com demonstrações de apoio ou caridade. Isso implicar permitir que aliados encontrem espaços não apenas de desconstrução de machismo e sexismo, ou reflexão sobre o patriarcado, mas também de construção da luta anti-opressão e de esforços transformadores. Apesar de amalgamar as noções de agência e sujeito em sua análise, Patrick D. Hopkins contribui para este debate ao afirmar que o importante para o feminismo como estratégia crítica é ser feminista, mais do que ser mulher, pois o ato de ser feminista propõe o uso do feminismo como lente para entender não somente a situação das mulheres mas como os fatores de gênero em geral em relação ao patriarcado (Hopkins, 1998, p. 51). A luta coletiva necessita de múltiplos agentes com perspectivas e posições diversas e, assim, deve incluir mulheres e homens. Homens aliados não devem ser relegados a espaços onde são apenas informados sobre as decisões tomadas em coletivo pelas mulheres, nem devem ser a eles negadas oportunidades de fala construtiva.

Casos conhecidos como mansplaining[iv] são problemáticos, mas a importância de evitá-los a todo custo não deve impedir importantes falas de aliados, especialmente aqueles que possuem valoroso acúmulo político e boas lições para a luta. Ao contrário, se aliados não possuem espaço de fala, como poderemos identificar verdadeiros casos de mansplaining a ponto de gerar reflexão e transformação da fala do aliado? Remetendo à discussão anterior sobre empoderamento liberal, lembro que não é o silenciamento do outro que gera conscientização, mas sim processo de análise crítica e reflexiva que garantem um engajamento permanente com a transformação da consciência e da materialidade. Tais situações exigem paciência por parte das mulheres em relação ao aprendizado dos homens aliados, pois um não se descoloniza ou se desconstrói em um dia. Exige também análise crítica pelas mesmas, para que não se criem situações em que homens, ao fazerem suas intervenções, sejam novamente silenciados na base do mansplaining simplesmente porque sua fala questiona práticas internalizadas do movimento ou gera debates pouco populares. Um movimento verdadeiramente preocupado com a transformação “para fora” deve se vigiar para não silenciar críticas ou sugestões de grande valor simplesmente porque o locutor ou a locutora possuem posições privilegiadas materialmente na sociedade, mesmo que agora se encontrem como aliados em uma construção coletiva. Da mesma forma, ideias não devem ser aceitas de modo mecânico simplesmente porque resultam da expressão de um indivíduo ou grupo oprimido. Como já visto na elaboração a respeito da autoridade epistêmica, nenhum indivíduo ou grupo deve portá-la de maneira a coibir a capacidade crítica do movimento para decisões tanto teóricas quanto práticas. A oportunidade da fala e da expressão provém não da posição da pessoa dentro do esquema opressor, mas de sua responsabilidade como agente de transformação da realidade opressora. Este entendimento demanda a centralidade da solidariedade como catalisador da agência coletiva.

A construção de um novo projeto político incrustado em valores coletivos demanda a solidariedade entre os oprimidos, entre os aliados, e, em demonstração de grande ousadia revolucionária, solidariedade para com o mundo de forma a facilitar também a transformação dos opressores. Este último, aspecto da pedagogia crítica pouco popularizado em relação aos métodos de auto-libertação, diz respeito não ao desmerecimento da dor do oprimido ou a ser condizente com a opressão executada pelo opressor. Na verdade, trata do grande passo na conquista da auto-libertação pelo oprimido, quando supera os momentos iniciais de sua transformação em sujeito, repletos de dor e violência, para alcançar a consciência crítica universal. Consciência, esta, que escapa da “força de imersão das consciências” da realidade opressora para se desenvolver de acordo com a práxis dialética da ação e reflexão geradoras da transformação da sociedade (Freire, 2005, p. 42). O objetivo da luta vai além da reparação das experiências sociais para alcançar a transformação sistêmica. Enfatizo aqui que não basta discursar que a luta é para o fim do patriarcado se as práticas de luta se focam apenas no particular.

Na relação entre aliados, a solidariedade é verdadeira ao ser mais do que a fala de apoio ou compaixão. Refere-se a solidariedade que assume “a situação de com quem se solidarizou” (Freire, 2005, p. 39). Este ato de assumir, todavia, não é o mesmo que uma inversão de papéis onde o aliado é forçado a vivenciar o silêncio e a exclusão daqueles que vivenciam e/ou vivenciaram a opressão. Afinal, este não seria um ato livre da lógica da opressão. O assumir a que Freire se refere é melhor entendido na concepção de solidariedade de Jodi Dean, que argumenta que a solidariedade é uma relação capaz de ser perpetuada e de ser transformada quando entendida como a “expectativa mútua de uma orientação responsável para se relacionar” (Dean, 1995, p. 123, minha tradução). Mais claramente, a solidariedade reflexiva tem em sua base um entendimento mais amplo do “nós,” o que permite que a relação de solidariedade sobreviva ao risco contínuo de desacordo, o qual é, mais propriamente, absorvido racionalmente de forma a fortalecer a base solidária (Dean, 1995, p. 123). O conceito do “nós” é mais amplo porque Dean propõe que ele seja entendido de forma comunicativa. Isso quer dizer que o relacionamento solidário não se dá de forma mecânica ou automática, mas é formado pelo esforço comunicativo de vários “eus.” A solidariedade dentro do feminismo da esquerda, portanto, deixa de ser domínio exclusivo de mulheres como grupo previamente formado, e passa ser o contínuo resultado da construção comunicativa de mulheres e homens engajadas cujo engajamento não se dá pela sua diferença, mas pela sua responsabilidade. Dean apresenta então um desafio para o feminismo da esquerda: ousar superar o discurso dualista “nós x eles” dentro da construção solidária para um “nós” inclusivo que existe independente da presença opositora do “eles.”

Quando bell hooks trata da importância de uma estratégia transformadora em relação ao racismo no movimento feminista, ela não fala da separação de mulheres brancas e negras, ou da negação de espaços de liderança para mulheres brancas devido ao seu “privilégio.” Ao contrário, hooks fala de solidariedade política (Hooks, 1984, p. 55). Tal solidariedade se estabelece a partir das ações transformadoras que decorrem do processo de desaprender o racismo, neste caso. Em outras palavras, a solidariedade é estabelecida de acordo com a conscientização não só das oprimidas mas também daquelas cujas ações são opressoras. Hooks considera o reconhecimento do privilégio em si como tão nulo quanto a falta deste reconhecimento. O importante, diz, é o processo transformador que pode ser gerado a partir do reconhecimento (Hooks, 1984, p. 54). Como já mencionado, a importância demasiada dada ao ritual de reconhecimento de privilégio pouco ajuda se oportunidades não forem criadas para que aliados demonstrem sua transformação, sua auto-afirmação, e sua solidariedade. O que hooks ensina é que na luta feminista, mulheres são aliadas em sua solidariedade e devem rejeitar ressentimento e/ou competição que impede que a raiva seja direcionada às forças opressoras (Hooks, 1984, p. 55). A lição é similar na luta revolucionária da esquerda, a qual, por englobar também a luta feminista, deve ser solidificada através da solidariedade entre mulheres e homens aliados empenhados em sua transformação.

É a partir desse entendimento de solidariedade política que hooks instiga o movimento feminista a abandonar a visão dualista e rasa de homens como opressores permanentes em sua posição e de mulheres como vítimas. Para ela, esta retórica solidifica uma ideologia sexista que propõe “a noção invertida de um conflito básico entre os sexos, a implicação sendo que o empoderamento de mulheres seria necessariamente às custas dos homens” (Hooks, 1984, p. 67). A crítica de hooks é exatamente a crítica ao empoderamento no sentido liberal apresentado anteriormente. hooks não demanda que o movimento deixe de reconhecer que “todos os homens apoiam ou perpetuam sexismo e opressão sexista de uma forma ou outra” (Hooks, 1984, p. 72), mas sim que as tarefas do movimento feminista não sejam distraídas da luta e da possibilidade de contribuição masculina ao super-enfatizar este primeiro fato. Solidariedade política, então, deve ser estendida também às relações entre mulheres e homens na luta feminista (pela abolição do sexismo e o poder do patriarcado) e na luta revolucionária socialista. Isto implica entender homens aliados como responsáveis por seu papel e participação no patriarcado e, devido ao compromisso com essa responsabilidade, engajados ativamente na luta feminista para que mulheres, apesar de sujeito do feminismo, não tenham que ser as únicas agentes do movimento. De fato, é preciso rejeitar a noção que mulheres podem realizar essa tarefa revolucionária sozinhas, precisamente porque a conscientização de homens em um processo de auto-liberação e sua contínua responsabilidade pela luta são fatores absolutamente necessários no enfrentamento de uma estrutura que engloba a sociedade humana em si.

Estratégias práticas multifuncionais: cura, conscientização, e solidariedade

Sobreviventes de machismo, sexismo, violência de gênero e sexual procuram no feminismo uma forma de compreender suas experiências e lutar contra o sistema de opressão que geram as mesmas. A luta é contínua e isso implica que essas lutadoras continuarão a ser expostas a situações que as fazem lembrar e/ou reviver seu próprio contexto pessoal. Portanto, o movimento feminista da esquerda deve manter e enfatizar espaços seguros para debates a respeito dessas experiências e o estreitamento de laços solidários entre quem as sofreu, quem as sofre, e quem esta diretamente engajada no enfrentamento da opressão. Esses espaços, como já mencionado, costumam ocorrer através de espaços auto-organizados pelas mulheres. Sua preservação é importante para que a perspectiva de quem está no centro da opressão seja tratada de maneira séria e com importante foco na saúde física, mental, e emocional de quem está dentro do movimento.

Porém, lembramos que estes espaços, apesar de espaços de cura, não podem substituir espaços de enfrentamento e construção. Existe a suposição de que espaços auto-organizados exclusivos para as mulheres dentro da esquerda e no movimento feminismo são de extrema importância porque possibilitam que as mulheres vítimas de opressão possam vocalizar sua dor e sua raiva. Apesar dessa vocalização ser essencial para a jornada de cada indivíduo ao lidar com suas experiências e traumas, seria mais proveitoso para as participantes se a noção do espaço seguro que existe dentro da exclusividade para mulheres fosse abrangida para todos os espaços do movimento. Assim, espaços de cura e solidariedade serão apenas um de vários espaços transformadores em que a pessoa pode vocalizar sua história sem temer julgamento ou mais opressão. Além disso, se o foco for apenas na experiência de opressão, corremos o risco de enfatizar um processo de vitimização interno que complementa a vitimização social. Hooks atenta para a perigosa tendência de estabelecer a vitmização mútua como base para a formação de laços entre mulheres, pois ela comunica que o foco na opressão é necessário para que o feminismo seja relevante na vida das mulheres (Hooks, 1984, p. 45). Ao contrário, o feminismo deve ser relevante na vida de mulheres e homens não através da experiência compartilhada da opressão, mas pela luta coletiva contra ela. Assim, espaços de cura (e todos os outros espaços da esquerda, determinados como espaços seguros) devem ser sempre entendidos também como espaços de solidariedade política, e também de conscientização.

O foco na conscientização deve ser primário por elevar o entendimento da experiência do particular para o universal, do pessoal para o político, tanto em espaços de cura quanto em espaços mais abrangentes de construção. A conscientização se aplica tanto à oprimida quanto ao opressor, e assim transcende o binário para que os sujeitos possam enxergar a si mesmos como sobreviventes (não mais vítimas) e aliados e aliadas na mesma luta. Como discutimos a respeito da autoridade epistêmica, a conscientização deve ser central na luta contra a opressão porque não toma a experiência de maneira mecânica ou essencialista, mas submete a experiência ao rigor da reflexão política e social de modo a passar a compreendê-la pela dialética da práxis (a união entre prática e teoria para a transformação do mundo, como diz Freire). Vemos, então, o quão importante é a inserção da teoria tanto na reflexão pessoal a respeito das experiências vivenciadas como no debate de construção revolucionário.

Muito se critica nos movimentos anti-opressão atuais sobre teorias e produções acadêmicas que em nada de aplicam à realidade social. Essa crítica é válida e necessária. O problema ocorre quando a crítica se transforma em uma rejeição direta a intervenções teóricas, ao julgar que a verdade revolucionária é dada pela experiência prática somente. Retomando hooks novamente, “experiências pessoais são importantes para o movimento feminista, mas elas não podem tomar o lugar da teoria” (Hooks, 1984, p. 30). É a teoria que possibilita abstrair das experiências pessoais o que temos de comum para identificar padrões sistêmicos e prover explicações que tratam dos problemas encontrados no nível universal. É a teoria também que impede que o personalismo de experiências se traduza em individualismo e maior vitimismo dentro de uma política de identidade liberal, já criticada por Wendy Brown. É dever do movimento feminista, e do movimento revolucionário de esquerda em si, promover a luta dentro da dialética da práxis. Isso quer dizer que somos responsáveis por construir teoria a partir da nossa prática e, simultaneamente, submeter nossa prática ao rigor da teoria. Somente assim preveniremos conclusões essencialistas a respeito das experiências de opressão que, afinal, desmobilizam mais que mobilizam, e também impediremos que imposições artificiais e incorretas capturem o movimento e o torne irrelevante por não corresponder à realidade material.

Diretamente, me parece que a complexidade da luta feminista da esquerda exige também uma complexidade de estratégias e espaços cujos diferentes focos também mantenham a importância da conscientização e da solidariedade política. Nosso objetivo deve ir além dos relacionamentos forjados dentro do movimento, pois “práxis dentro de qualquer movimento político que visa a ter um impacto radical e transformador na sociedade não deve focar somente na criação de espaços em que ‘radicais em potencial’ tenham a experiência de segurança e apoio” (Hooks, 1984, p. 28, minha tradução). Posso apresentar então que, visto a importância de estender a segurança dos espaços auto-organizados para todos os espaços do movimento, não é necessário que a exclusividade de “grupos de mulheres” nos espaços específicos de cura seja imposta em outras ocasiões de construção e luta. Com o foco principal na conscientização e solidariedade política, o movimento convida a práxis coletiva a todos os espaços: de debate, de mobilização, de reflexão, de auto-crítica, além de outros. Salvo espaços auto-organizados promovidos com o intuito específico de compartilhar experiências de opressão e expor traumas (ainda assim com o objetivo de reflexão além da busca de apoio), faz-se nula a necessidade de promover práticas separatistas entre mulheres e homens no movimento feminista da esquerda. Não é preciso impor a regra do silêncio aos homens aliados para que as mulheres possam falar nesses espaços. Deve-se supor, objetivamente, que se estamos a construir um movimento verdadeiramente para superação da opressão, homens serão aliados de grande utilidade e aprenderão, em sua constante reflexão, a avaliar o equilíbrio necessário em termos de participação, fardo, e exposição.

É certo que esta proposta ainda encontra obstáculos por mulheres no movimento, ainda mais em situações de exposição, quando a sociedade em geral continua a dar maior destaque para a voz masculina nas diversas frentes de luta. O reconhecimento que deve ser promovido, então, não é de que os homens aliados precisam se calar, mas sim que a luta é longa e contra uma totalidade dominadora. Já se faz suficiente, então, que o movimento se organize para destacar a presença e ação das mulheres de maneira que elas representem ali o movimento em coletivo, e não somente suas próprias vozes. Além disso, podemos avaliar o impacto subversivo que se dá mesmo quando homens aliados recebem algum destaque, já que eles empregarão discurso e prática diretamente opostos ao discurso e à prática hegemônica que patriarcado espera dos homens. É preciso livrar o movimento feminista e seus combatentes da idéia de que quando um homem aliado se entende como “feminista” ou utiliza sua voz dentro do feminismo ele impede o protagonismo das mulheres dentro do movimento. Feminista é quem faz a luta feminista, não apenas o sujeito ontológico da luta (visto que muitas mulheres são machistas e anti-feminismo). Como um movimento pela superação da opressão sexista e patriarcal e todas as outras opressões, especialmente em como são exaltadas pelo capitalismo, o movimento feminista da esquerda revolucionária necessita de menos preocupações a respeito do lugar das mulheres como sujeito ontológico, de menos limitações às contribuições de aliados feministas, e enfim, de substituir práticas e discursos do protagonismo liberal que enfatiza a experiência de opressão pelo foco na conscientização que mobiliza a luta pela superação e eleva a solidariedade política.

Conclusão: restaurando o humanismo na luta socialista-feminista

O movimento feminista da esquerda revolucionária é marxista em sua visão da totalidade e humanista em sua perspectiva dialética da abolição da opressão para a restauração da liberdade humana. Para fazer essa afirmação, é preciso apresentar uma breve crítica de como a noção do humanismo tem sido vulgarizada e desvinculada de sua base teórica de forma a atrelar seu significado a debates que buscam intervir em práticas segregadoras e por demais “mulheiristas” do movimento feminista. Portanto, busco concluir abordando este tema para o resgate do humanismo como pauta unificadora das lutas anti-opressão dentro do processo revolucionário de esquerda. A crítica incorreta é que não precisamos do feminismo se temos o humanismo. A crítica abraçada aqui é que o feminismo também precisa ser humanista para alcançar sua missão da abolição da opressão.

Erich Fromm oferece uma síntese do marxismo humanista através da visão do socialismo de Marx: “Para Marx, socialismo significava a ordem social que permite o retorno do [ser humano] a ele mesmo, a identidade entre existência e essência, a superação da separação e antagonismo entre sujeito e objeto, a humanização da natureza; significava um mundo em que o [ser humano] não é mais um estranho entre estranhos, mas está em seu mundo, onde ele está em casa” (Fromm, 2011, p. 69, minha tradução). O socialismo marxista, quando livre de distorções ortodoxas e estruturalistas, é, por si próprio, o humanismo. A revolução proposta por Marx não é apenas econômica, mas também pela superação da opressão em todos os seus sentidos desumanizadores. Trata-se de um processo revolucionário dialético de duas negações: a negação da opressão, e negação da necessidade da primeira negação (aufheben). O feminismo como luta elementar dentro da esquerda revolucionária é humanista porque não se preocupa apenas em enfrentar a opressão, mas, ao transcender a lógica dessa opressão em uma práxis libertadora, ajuda a construir noções e estruturas sociais revolucionárias. Não basta ser anti-patriarcado, é preciso também ser construtora de um mundo novo, e isso também se aplica a como nos organizamos dentro do movimento.

A crítica, portanto, não é de que devemos nos livrar das diversas linhas das frentes revolucionárias como feminismo (e feminismo negro, e feminismo indígena), e a luta anti-colonialista, anti-racista, anti-imperialista e chamar a tudo de socialista. Isso seria um retrocesso, pois devemos continuar a realçar a complexidade da luta e trazer a tona como a opressão impacta a uns diferentemente de outros. Não é esta a conclusão a que chegamos (e quem chega a ela claramente não entende o que é o humanismo marxista). Na verdade, concluímos que a luta socialista, em seu caráter humanista, deve englobar todas essas outras lutas que se encaixam nas duas negações, no processo revolucionário. Nem todo feminismo é socialista, mas assim como necessitamos de um feminismo socialista, nosso socialismo deve ser em sua essência feminista.

Muito se fala das falhas de Marx e os antigos marxistas ao negligenciarem a questão da mulher. Sim, a questão foi negligenciada, mas como nos lembra Barbara Ehrenreich, o marxismo que nos leva ao feminismo não é o marxismo da “questão da mulher,” já que essa preocupação compartimentaliza a práxis da mulher de maneira a separar a opressão do patriarcado da luta revolucionária (Ehrenreich, 1997, p. 68). Apesar de reconhecermos que a totalidade do capitalismo infiltra todas as outras formas de opressão (e por isso não devemos falar apenas de “classismo” como o pós-modernismo sugere), a preocupação com supostas hierarquias que perguntam qual frente de luta é mais primária, ou qual opressão é mais opressora, não deve nos interessar, porque pouco adiantam na busca da superação de quaisquer dessas opressões. O que sabemos é que a utopia revolucionária humanista não consiste somente do fim do capitalismo, ou do patriarcado e sexismo, ou do racismo, ou do colonialismo, ou da homofobia, mas sim de todas essas fontes de opressão que historicamente se completam e se reconfiguram entre si.

Sabrina Fernandes

 Agradecimentos a Samuel, Thiago, Beatriz, Vanessa, e Rodrigo pelos comentários recebidos na elaboração desse texto.


[i] Não se implica aqui que a materialidade da opressão é revertida, pois a totalidade da experiência da opressão ainda se impõe ao oprimido. Ao que me refiro ao falar da reversão da lógica da opressão é que a necessidade de expressar ressentimento em uma noção limitada de liberação não escapa da lógica do dano presente na totalidade opressora. Ou seja, há uma troca de papéis simbólica na locução do dano pela oprimida que o dirige ao potencial aliado símbolo do opressor.

[ii] O feminismo socialista não prega a supremacia da femininidade em relação à masculinidade, tanto porque não são entendidos como um binário de oposição, mas sim um continuum de características, práticas, comportamentos, e atributos de gênero. Dessa forma, uma pessoa do gênero feminino também pode ter comportamentos masculinos, e vice-versa. O problema das atitudes masculinizadas de companheiras se encontra na falta da transformação do espaço de fala ou destaque na militância, que continua a espelhar os espaços de poder do patriarcado que valorizam a masculinidade hegemônica (também tóxica) como atributo de legitimação de fala. Assim, as atitudes das companheiras são masculinizadas de maneira mecânica pelo espaço embutido na lógica de opressão patriarcal. Em um espaço organizado contra essa lógica, quem participa se encontra livre para exibir atitudes masculinas e femininas saudáveis.

[iii] Destaca-se, aqui, que esta afirmação não exclui que o mesmo raciocínio das mulheres no feminismo seja aplicado à função de sujeito de homens homossexuais e homens trans na luta LGBT, por exemplo. De fato, como a luta LGBT também é pautada dentro do feminismo de esquerda, determinados momentos podem destacar o poder do sujeito LGBT como sujeito também dentro do feminismo. Todavia, por necessidade de simplificação textual, trato particularmente do caso majoritário da mulher como objeto do patriarcado e sujeito do feminismo neste trabalho.

[iv] O mansplaining ocorre quando um homem supõe ter mais conhecimento sobre determinado assunto que uma mulher ou grupo de mulheres e se dedica a explicar o assunto para as mesmas. Diferentemente de um debate informativo, o mansplaining possui uma conotação paternalista, voltada a “corrigir” o pensamento da mulher e desvalidá-lo. É preciso ter cuidado para não marcar todo diálogo entre homens e mulheres como tentativas de mansplaining por parte dos homens.

Referências

Brown, Wendy. (1995). States of Injury: Power and Freedom in Late Modernity. Princeton: Princeton University Press.

Dean, Jodi. (1995). Reflective Solidarity. Constellations, 2(1), 114–140. doi:10.1111/j.1467-8675.1995.tb00023.x

Ehrenreich, Barbara. (1997). What is Socialist Feminism? In R. Hennessy & C. Ingraham (Eds.), Materialist Feminism (pp. 65–70). New York: Routledge.

Freire, Paulo. (2005). Pedagogia do Oprimido (49th print.). Rio de Janeiro: Paz e Terra.

Fromm, Erich. (2011). Marx’s concept of man. Mansfield Centre: Martino Publishing.

Hennessy, Rosemary. (2000). Profit and Pleasure: Sexual Identities in Late Capitalism. New York: Routledge.

Hooks, Bell. (1984). Feminist Theory: from margin to center. Cambridge, Mass: South End Press.

Hopkins, Patrick D. (1998). How Feminism Made a Man Out of Me: The proper subject of feminism and the problem of men. In T. Digby (Ed.), Men Doing Feminism (pp. 35–56). New York: Routledge.

Marcuse, Herbert. (1941). Reason and revolution: Hegel and the rise of social theory. New York: Oxford University Press.

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