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10 Mar 2015

A construção da luta socialista deve sempre ir além dos argumentos sobre a corrupção

(Ou: porque as mobilizações agendadas dessa semana são uma farsa)

Data: 15 de março – os 3 C’s: conservadores, dos coxinhas, e dos confusos
Não é a primeira vez que marcam um ato com bastante antecedência com a visão de que este finalmente será o protesto que marcará e mudará a história do país. Isso aconteceu recentemente em vários momentos pós-junho 2013, e o que todas essas chamadas tinham em comum era o aproveitamento de uma insatisfação política generalizada para fomentar não uma nova moral política, mas sim um moralismo político centrado no combate seletivo à corrupção e uma visão excludente do que é melhor para o Brasil (e quais brasileiros merecem tanta melhoria). Mas antes que me acusem de generalização, vamos por partes.

 

Junho de 2013 marcou a história do Brasil com vários momentos conectados porém politicamente diferentes. Ali haviam ações radicais da ala de esquerda, ali havia luta de classes. Ali havia também: uma galera com boas intenções, muita gente mobilizada pela tal “crise de representatividade,” muita gente que identificava (e até hoje identifica a corrupção como fonte de todos os problemas do mundo), um pessoal que misturou seu desprezo por partidos devido a esses mesmos problemas com agressividade anti-partidária, outros grupos que misturaram não só apartidarismo com anti-partidarismo mas também com uma posição apolítica e anti-política e, finalmente, uma certa faixa da população envenenada pelo anti-petismo e empoderada por valores conservadores dispostos a se envolver politicamente para trazer a direita tradicional de volta ao poder. Nesse meio todo identificamos sim a direita tradicional e a renovada direita fascista (diferentes e parecidas ao mesmo tempo) na base dos conservadores, os vulgos “coxinhas,” e os meramente confusos. Os três C’s. Esses três grupos existem hoje, porém não perderam a justificativa da crise de representatividade, já que, com exceção da presidente, elegeram com sucesso seus representantes nas eleições de 2014. Temos uma bancada tão conservadora e punitiva que assusta até alguns veteranos da ditadura, porém não o suficiente para forçar os milicos que pedem seu retorno de volta às suas tocas e convencer seus apoiadores a refazerem um os dois anos de aulas de história brasileira. Ou pelo menos o suficiente para aprender que foi a ditadura militar que ensinou a roubar e mentir tão minuciosamente. Enfim, vamos aos grupos e o que eles têm a ver com o dia 15.

 

Os conservadores (direita tradicional e direita fascista): dois lados da mesma moeda, um lado tenciona e o outro lado lucra politicamente e literalmente. São os maiores articuladores da manifestação de 15 de março, empoderados por canais e atores tanto conservadores e reacionários quanto abertamente fascistas. Logo após as eleições de segundo turno, esses grupos tentaram articular uma movimentação já com palavras de impeachment e forte caráter conservador. Não deu certo. Agora, com data marcada e marketing de “vem pra rua” no lugar de “vamos dar o golpe no Brasil,” eles buscam manipular grupos despolitizados ou bem-intencionados para garantir legitimidade “popular” (assim, entre aspas) para suas propostas menos democráticas e mais elitistas.  Incluem grupos com elevados interesses políticos, como partidos políticos da direita tradicional que buscam avançar mais ainda como oposição de governo e um dia voltar a ser governo, e grupos da mais extrema direita que querem fazer reformas profundas na sociedade brasileira em relação à revogação de direitos, à entrega total da economia para o mercado, e a militarização explícita da economia. Aqui temos o pessoal da intervenção militar também. Ou da intervenção militar constitucional (é sério??), como li noutro dia achando que era ironia mas não era. Aí, lembrei que de figura de linguagem esse pessoal saca mesmo é só de oxímoro. Esse sim é o grupo do golpismo, e essa diferenciação precisa ser feita para não misturar grupos da população que se sentem raramente motivados a ocupar as ruas com a calhorda que co-opta a liberdade de expressão política ao seu favor. A grande burguesia também está aqui. Não estou falando dos nouveau riche que acham que estão no topo do capitalismo, mas dos que realmente estão. Os banqueiros, os donos da construção civil nacional e internacional, os empresários da indústria de alimentação, e os exploradores dos recursos naturais não perderam muito com o PT no poder (o Bradesco mesmo só ganhou), mas não podem negar que a vida seria ainda mais fácil manipulando um governo que o beneficiasse sem gastar tempo ou dinheiro com essa conversa de política social (por mais ínfima que ela tenha sido). Os grandes conservadores, em especial os machistas racistas e homofóbicos estão nesse bolo também (oi Bolsonaro!), especialmente os grupos opressores ignorantes que se revoltam junto ao fascismo também devido à associação do PT com a esquerda (por mais fraco que esse elo seja hoje em dia) e os direitos que a esquerda representa. Mas não pretendo empregar muito tempo do texto aqui, quero só enfatizar para os dois grupos posteriores que esses são sim os manda-chuvas do processo e quem vão se beneficiar de alguma maneira de qualquer mobilização mais à baixo por seus interesses de poder (econômicos ou opressores). 

 

O resumo é: aquela pessoa comum que vai/quer ir ao protesto do dia 15 de março mas não vai ganhar cargo político nem ganhar milhões de reais, nem se enxerga como o destruidor de direitos humanos e de qualquer sonho de uma sociedade mínimamente igualitária (nem que seja pelo mero respeito a uma Constituição embasada em tal valor), não deve se enxergar como protagonista desse processo. Os protagonistas são poderosos ou grandes hasteadores das bandeiras da opressão. A grande elite que gostaria de facilitar as coisas com um governo abertamente de direita, e pessoas que seguem à risca a cartilha do seu Olavo, dormem abraçadas com a Veja, acreditam que o Bolsonaro é um ser humano, e que a ditadura militar foi a melhor fase histórica do Brasil. Agora, as pessoas que ainda pretendem ir ao dia 15 mas não se encaixam em nenhum desses quesitos provavelmente pertencem à faixa de coxinhas ou de confusos. É com esses grupos que pretendo dialogar, não com os opressores do outro lado da trincheira.

 

Os coxinhas: nunca me decido sobre a utilidade desse termo, mas ele está novamente em voga. Tem vários tipos de coxinha, mas o destaque realmente sempre vai para os coxinhas raivosos e esnobes. A melhor exposição que já li a respeito, e que supera quaisquer noções de coxinhice ou coxinhada, foi feita por Alvaro Bianchi na penúltima vez que Dilma foi abertamente xingada, na Copa. Trata-se de uma low upper class que  “gosta de forró universitário, rodeios, comédias stand up, Romero Brito e teatro besteirol. Distingue-se dos demais pelas marcas que consome e pelos gastos astronômicos em bobagens. A única coisa que esses marcadores permitem distinguir é sua monumental estupidez. Por isso não tem pudor em encher a boca com um palavrão.” [1] Além do coxinha riquinho e ignorante, tem coxinha de classe média alta que queria ser rico, coxinha bem intencionado mas que nunca lembra de cancelar a assinatura da Veja, e até coxinha que sofre todo dia na classe média mas se engana ao acreditar que a fonte do caos econômico e social é a corrupção, e não o próprio capital. Com tanta variedade de sabores, é importante enfatizar que a receita de coxinha sempre tem uma mistura de valores de direita e entendimento estreito de política (quando não completamente despolitizado!). Nesse meio tem gente que até apoiou Lula, quando achava que seus valores de direita eram realmente tão superiores que até um cara de “esquerda” os promovia. Todavia, a resposta padrão do coxinha de hoje para qualquer problema do país é “Fora PT.”  E da mesma forma que o policial padrão acha que a solução para a política é sempre a bala de borracha, esse coxinha acha que basta gritar “Impeachment” por aí para eliminar a corrupção. Tenho um certo medo dos coxinhas, não como força política pois são marionetes das direitas tradicional e fascista, mas porque representam a normalização da despolitização. Isso acontece porque se digo para gritar “Auditoria da dívida pública” em vez de “Impeachment” ou passa batido ou desprezam por rejeição a qualquer solução de esquerda.

 

O resumo é: aquela pessoa comum que vai/quer ir ao protesto do dia 15 de março e se encaixa na categoria de coxinha está sendo usada através de valores individualistas e informações manipuladas. Se não se importa com isso, talvez melhor até parar de ler por aqui. Se você percebeu que você é um pouco coxinha, que pelo menos cheira que nem coxinha, e não quer isso na sua vida, é sua chance de se desvincular da base despolitizada manipulada pela direita e o status quo. Se você realmente é contra a corrupção, não é se vestir de verde e amarelo e gritar “Fora PT” que vai resolver alguma coisa. Sai Dilma, entra Temer. Sai Temer, entra Cunha. Enquanto isso as Forças Armadas podem articular influência cada vez maior, com consequências possivelmente desastrosas. Queime as edições passadas da Revista Veja no próximo churrasco, reconheça que a corrupção não é um mal partidário e sim mal sistêmico, busque fomentar valores de justiça social na sua visão política, e invista no conhecimento crítico da sociedade. E, se for o seu caso, confie um pouco mais no taco da sua amiga ou seu amigo socialista e nas análises políticas que eles trazem à mesa. Existe projeto de sociedade sem corrupção sim, e ele não envolve o capitalismo, muito menos um processo eleitoral financiado por grandes empresas como o que temos no Brasil hoje. Parece até absurdo cobrar que parlamentares e governantes representem o povo se são patrocinados aos milhões pelo pessoal da alta burguesia que realmente ganharia com um processo como o do dia 15.

 

Os confusos: esse grupo se mistura um pouco com aqueles que se comportam e/ou pensam como coxinhas, mas não queriam ser. São pessoas com alguma tentativa de se politizar e se esclarecer a respeito dos grandes dilemas políticos atuais e históricos. São de classe média ou baixa e realmente estão sentindo quão insustentável se tornou a crise econômica e de regime do governo petista. Procuram ética na política, mas tendem a priorizar um moralismo político em vez da mudança de postura mediante ao sistema capitalista neoliberal. Costumam também valorizar vários processos de justiça social, e quaisquer resquícios de política conservadora tendem a ser pessoais em vez de bandeiras políticas que devem ser impostas na sociedade. É o pessoal que está indo no dia 15 porque realmente acredita ser um dia de grandes mobilizações, de pressionar o meio político para fazer mudanças necessárias (mesmo sendo que a confusão se estende a que mudanças são essas). Infelizmente, é o pessoal que realmente vai ser usado como instrumento de legitimidade para os grandes conservadores que têm financiado e articulado o dia 15. Esse pessoal não teria ido à marcha pelo impeachment da Dilma convocada por Lobão (e Aécio Neves, furão) no ano passado, mas de alguma forma se sentem mobilizados para participar do dia 15, talvez devido à estratégia de marketing que citei que busca associar a marcha conservadora com o sentimento de insatisfação generalizado de junho de 2013. Mas não se enganem, o único paralelo entre 15 de março e junho de 2013 é a tentativa ferrenha de co-optação da direita da indignação do povo. Naquela época, a direita enxergou a insatisfação dos que já estavam nas ruas como oportunidade de alimentar a ultra-política da guerra ideológica despolitizada e acumular forças. E realmente acumulou em vários sentidos. Hoje, a direita busca convencer pessoas indignadas a ir para as ruas no dia 15 para exigir mudanças, porém a pauta já foi determinada pelo alto escalão e as oportunidades de disputa e diálogo naquele espaço são nulas. Se em junho de 2013, mesmo com o crescimento do ódio e da ignorância que promoveram agressões à ala de esquerda, a disputa permaneceu entre a luta popular e o ufanismo cego e cacófono, este não é o caso em 15 de março.

 

O resumo é: aquela pessoa comum que vai/quer ir ao protesto do dia 15 de março porque realmente acredita ser necessário expressar sua indignação com a crise e a corrupção possui opções bem melhores de participação e intervenção política que um processo tão conservador, elitista, e aproveitador da vontade popular. Tem gente por aí dizendo a alternativa é participar da chamada da base do governo para mobilizações do dia 13. Eu digo que não, e vou explicar porquê.
 
Data: 13 de março – o governismo pede defesa
O risco de adesão do dia 15, que tem caráter não só de direita mas abertamente antipetista e anti-Dilma, provoca no governo a necessidade de defesa. Para isso, o governismo se utiliza de uma base histórica que foi massificamente manipulada para dentro da política do governo. Isso vai além do que defende o PT ou quem está o PT, e sim no transformismo por qual o PT passou assim que alcançou o maior cargo executivo do país. Existem socialistas, pessoas verdadeiramente comprometidas com a justiça social e a transformação da sociedade, ali dentro do PT? Sim, existem, mas não compõem o governismo desgovernado apresentado pelo PT hegêmonico. É contra esse governismo que devemos nos posicionar, assim com a tentativa descarada de utilizar o combate à pauta de direita do dia 15 para alimentar apoio para um governo que toma medidas austeras e neoliberais e composto por inimigos dos trabalhadores. Nenhum apoio ao governismo! Nenhum apoio às medidas de Dilma e de Levy. Fazer oposição ao projeto de direita (e o golpista) não significa se entregar nos braços de um governo que diz defender a Petrobrás, mas abandonou com facilidade qualquer proposta de controle social da empresa. Um governo eleito com dinheiro privado de empresas que têm cobrado a fatura constantemente, contra os interesses da população. E, claro, um governo sim cheio de corrupção, já que a corrupção é compatível com os valores promovidos medidas econômicas que favorecem o mercado e os poderosos em vez da sociedade em geral.

 

O resumo é: quem é contra o dia 15 não precisa ser automaticamente a favor do dia 13 (e nem aceitar coerção para que participe da marcha de base governista). Dia 15 e dia 13 não são simetricamente opostos, e a lógica dos dois espaços precisa ser combatida, pois nenhuma fomenta o direito dos trabalhadores e a construção de uma sociedade justa. Existem companheiros de luta que pretendem disputar o dia 13 para a esquerda socialista, e a eles desejo boa sorte. A posição que defendo é um boicote ao dia 13 assim como do dia 15, para que a nossa luta não seja utilizada de maneira oportunista para justificar o discurso dominante de ambas as datas. A saída é à esquerda. Como li recentemente, o importante é enfatizar que a luta é diária e buscar dialogar com os insatisfeitos:  “Agora, à esquerda dessa falsa divisão entre a defesa cega do governo e da tentativa desesperada do golpismo, existe uma parcela ainda minoritária da população em luta e uma boa parte a ser convencida de que existe uma saída à esquerda para a crise.” [2]

 

Mas eu não sou/quero ser direita, nem coxinha, nem confusa, nem governista! Como gerar mudanças reais, então?
A merda da qual eu estou falando é sistêmica. Não é a poeira do dia a dia nem os pratos sujos do almoço. O que tanto fede está na fundação da casa, começando pelo capitalismo impregnado nas paredes, na fiação elétrica, e tão presente no sistema de esgoto. Isso só se resolve com luta. Luta diária, luta de classes, luta politizada. A alternativa se encontra com as propostas verdadeiramente radicais e revolucionárias, que nem a direita, que nem o governismo, e muito menos a ala despolitizada pode garantir. 

 

É desonesto afirmar que o brasileiro é preguiçoso e acomodado, quando os professores do Paraná lotam um estádio inteiro em assembleia e os sem-teto de São Paulo enfrentam repressão e ódio para garantir o direito constitucional à moradia. Ir para rua no dia 13 ou dia 15 não é necessário porque “o povo precisa ir para a rua para trazer mudanças.” O povo já está nas ruas! Todos os dias, lutando por todos os direitos e por uma sociedade livre de opressões e de exploração. É a eles que quem está confuso mas possui boas intenções precisa se juntar, e com isso se politizar ainda mais para perceber que o buraco da corrupção está bem mais abaixo. Não devemos tratar a corrupção como Mal Maior, mas sim como sintoma de uma série de estruturas de expressão que levam ao topo apenas aqueles com valores corruptos, egoístas, e individualistas. Quando as pessoas da esquerda (a esquerda mesmo, aquela que mantém seus princípios e não se entrega ao jogo ambíguo do governismo) fala de valores socialistas, não é por acaso. Valores socialistas são valores coletivos, de priorização do bem comum, de preocupação com o bem-estar geral da sociedade, a sustentabilidade do planeta, e intolerância absoluta com a opressão e a exploração. Quem é corrupto explora a sociedade, então a sociedade deve lhe tomar as armas da exploração em vez de combater um corrupto de cada vez.

 

Data: Revolução – esquerda radical e interessados
Não escreverei uma tese de convencimento sobre a saída socialista para a crise e sobre a necessidade de lutar pela revolução. Prefiro apenas estender o convite para travar a luta diária por direitos trabalhistas, por direito à cidade, por igualdade, contra a opressão e a exploração. Mais ainda, chamar para o diálogo e incentivar a ato da pergunta, da indagação. Paulo Freire, tão sabiamente, explicou que: “A existência humana é, porque se fez perguntando, à raiz da transformação do mundo. Há uma radicalidade na existência, que é a radicalidade do ato de perguntar.” [3]

Perguntemos: que sociedade queremos e como alcançá-la? 

 

[1] Bianchi, Alvaro. A burguesia de mentira e as vaias para Dilmahttp://blogconvergencia.org/blogconvergencia/?p=2319
[2] Insurgência. À esquerda da divisão entre golpismo e governismohttp://www.insurgencia.org/a-margem-a-esquerda-da-divisao-entre-golpismo-e-governismo/
[3] Freire, Paulo e Antonio Faundez. Por uma Pedagogia da Pergunta. http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/paulofreire/paulo_freire_por_uma_pedagogia_da_pergunta.pdf
porrevolucao

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