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02 Mar 2015

Debatendo o feminismo radical

Após publicar o video sobre minha introdução ao feminismo (solidário) na mesa de debates sobre gênero organizada na PUC Goiás, recebi uma intervenção anônima que julgo ser muito necessária para alimentar o debate entre a linha do feminismo radical e a linha que reivindico, especialmente nesse texto anterior aqui. Posto minhas respostas à intervenção, e apesar de não conhecer a companheira, agradeço o comentário e a maneira como nos levar a avançar a construção.

 

(1) “O feminismo “radical” é “radical” de “voltar às raízes”. É uma teoria revolucionária, e não reformista e é daí que vem o termo radical.”

Comentário: O termo radical realmente significa isso, e o utilizamos assim até para fazer distinções na esquerda (esquerda radical x moderada). Porém, existe uma linha específica do feminismo chamada “feminismo radical” (radical feminism, radfem) que emprega o termo radical não só como voltar às raízes, mas tem certas políticas específicas. Eu me considero uma feminista radical (e revolucionária, já que radical não significa revolucionário por razões que eu expressei naquele texto gigantesco Feminismo, solidariedade, e revolução – o radical é a primeira negação, o revolucionário é a segunda negação – dialética hegeliana – o que implica que revolucionário existe na abolição total da opressão e como a LINHA do feminismo radical implica a especifidade das lutas, trabalha na primeira negação e não na segunda). Mesmo me enxergando como uma feminista radical no sentido das raízes, eu não participo da LINHA do feminismo radical. É um pouco pretensioso (e pouco construtivo) reivindicar a posição radical apenas para a linha que tem radical no nome. Essa confusão é bastante comum, tanto que a própria bell hooks, feminista negra revolucionária, se confunde nisso várias vezes – até se contradizendo! – em partes do Feminism is for Everybody (livro recente dela), o que também contradiz excelentes contribuições dela no Feminism from margin to theory. Enquanto ela faz bem em criticar o feminismo liberal, se posicionando como uma feminista radical para combater o reformismo, em certos pontos ela faz coro com ativistas da LINHA do feminismo radical do “verdadeiro feminismo” e menospreza feministas que discordam em certos assuntos como aliadas do patriarcado. Esse tipo de crítica precisa ser construída de maneira mais orgânica e menos predatória. Mas daí a confusão entre objetivo e normatividade da linha. A linha mesmo surgiu dentro da segunda-onda de feminismo e tem posições específicas que a separa do feminismo socialista/marxista/materialista, por exemplo, mesmo essas últimas linhas também sendo radicais no sentido na palavra radical.

(2) “Não “construímos uma luta de homens contra mulheres”, é até meio absurdo dizer isso. Nós construímos uma luta de mulheres para mulheres, temos problematizações muito mais profundas porque sabemos que, se a sociedade é machista, tudo nela também é. Todos os nossos gosto, preferências, opiniões e desejos foram moldados em uma sociedade machista, racista e homofóbica então tudo tá passível de problematizações.”

Comentário: Problematização correta e bem-vinda, que delego à necessidade de trabalhar horas de tema em 20 minutos. A intenção inicial de fazer uma colocação dessa forma se dá no posicionamento do feminismo radical (e a partir de agora vou falar apenas da linha) em relação à posição e função dos homens na sociedade. Na minha perspectiva de feminista socialista marxista, existe um foco muito importante na relação dialética agência/estrutura que nos desafia a trabalhar a posição do homem não como opressor reificado, mas sujeito à subjetividades em relação à estrutura (patriarcado). Assim, trabalhamos com a luta das mulheres contra a estrutura e a necessária desconstrução de seus agentes (via conscientização ou combate direto para os agentes ativos opressores). Falo mais disso naquele texto que já mencionei. Essa distinção posiciona o feminismo marxista (e agora vou fazer uma caracterização simplista pela necessidade de resumir) como agentes feministas x estrutura que assim atinge os seus agentes, quando a linha do feminismo radical se encaixa mais propriamente em agentes feministas x agentes do patriarcado (é uma visão diferente de agência/estrutura – enfim, uma é hegeliana e a outra não). Então aqui se explica a nossa divergência, apesar de eu ter realmente feito uma caracterização um pouco grotesca na fala (o que acredito ser comum nesses espaços de locução, mas que de certa forma remetia ao que é falado por aí, para dialogar com essa caracterização comum.

(3) “Problematizamos a ideia de liberdade sexual, a prostituição, BDSM, maternidade, heterossexualidade e o próprio gênero em si.”

Comentário: Verdade. Não descaracterizei isso em nenhum momento. Tanto que as minhas divergências com a linha do feminismo radical se dão bastante no eixo “liberdade sexual, a prostituição, BDSM,” já que defendo também a linha sex-positive.

(4) “A teoria feminista veio com a segunda onda do feminismo, a primeira onda foi o movimento sufragista. O feminismo radical é todo baseado em teoria feminista. Todas as outras correntes do feminismo, como interseccional, liberal e etc misturam teoria feminista com teoria queer. A teoria queer nasceu com a “terceira onda do feminismo” que na verdade nós não consideremos feminismo.  Porque a teoria queer defende justamente que gênero é identificação, ou seja, que existe uma essência feminina com a qual as pessoas se identificam e então se tornam mulheres, seja ao nascer ou com 60 anos. Isso não existe pro feminismo radical. Nós somos críticas de gênero. Pra nós, gênero não é um sentimento ou identificação, é construção social, socialização, e biologia. Hoje eu sou uma mulher porque nasci com cromossomos xx, com genital feminino e fui, durante a minha vida, socializada como mulher, ou seja, fui ensinada  a ser uma mulher, porque mulheridade não é algo natural. Mulheres não nascem com preferência por rosa e salto alto, isso é tudo socialmente construído.”

Comentário: Não vou entrar muito à fundo nisso porque vou ser consumida pela prolixidade e não vai contribuir em nada. Concordo com a caracterização da evolução histórica da teoria, apesar de discordar que a teoria feminista tenha surgido apenas com a segunda onda. Talvez você tenha se referido justamente a teoria do feminismo radical, que é o caso mesmo. Mas nessa colocação é que se encontra uma das nossas maiores divergências. Eu utilizo o feminismo queer e a teoria queer para fazer uma intervenção no feminismo socialista marxista. Isso implica que as condições materiais contra as quais lutamos precisam ser colocadas em perspectiva através da subjetividade das pessoas, e gênero é uma dessas subjetividades. A construção social não é do gênero, mas da normatividade de gênero. Assim, pessoas expressam e reivindicam diferentes expressividades de gênero que batem diretamente de frente com a normatividade de gênero (salto alto e rosa sendo exemplos da normatividade). Portanto, nossa leitura de gênero é diferente.

(5) “E é justamente por essa visão que temos de gênero que nos acusam, falsamente, de sermos transfóbicas.”

Comentário: Outra divergência. A transfobia não é simplesmente aquele processo raivoso de rejeição ou violência. Eu considero que a transfobia também se encontra em processos de exclusão (trans-exclusão). Como fiz a defesa na parte de pergunta e respostas do debate (infelizmente, não gravada), as feministas radicais não são pessoas ruins por isso, elas possuem razões inscritas na sua subjetividade que inform essa interpretação de gênero. Meu apelo é para que possamos superar isso através da solidariedade na luta contra a estrutura patriarcal. Portanto, eu considero essa posição transfóbica sim, mas espero que não seja lido como um ataque, pois não é a mesma coisa que a transfobia violenta dos agentes do patriarcado (e aqui pessoas trans* podem qualificar essa distinção e o impacto da opressão da exclusão de maneira imensamente mais legítima e superior a mim).

(6) “Sendo que o que acontece é o seguinte: privilégios moldam toda a sua vida. Se você é visto como homem, isso vai te dar uma vantagem absurda e vai te proporcionar vivências completamente diferentes das minhas, que sou vista socialmente como mulher. E mesmo aquelas pessoas que optam por transicionar de sexo carregam toda essa carga de privilégio ou opressão consigo. Ninguém discorda que pessoas trans* sofrem. Mais da metade da população de travestis precisa se prostituir pra sobreviver, isso é viver na marginalidade, isso é passar por situações perigosas e horríveis.”

Comentário: Como falei ali em cima, eu realmente não proponho que as feministas radicais não acham que pessoas trans* sofrem. Existe solidariedade nesse ponto. E é bastante importante essa menção da prostituição das travestis, que é algo que o companheiro João Pucinelli mencionou logo após a mim na mesa (vou postar o video completo em breve). É uma situação bastante opressora! No feminismo em que milito, a posição é que o trabalho sexual deve ser uma escolha, e não uma imposição da sociedade (e o feminismo radical discorda com isso – debate para outro dia!)

(7) “Pessoas trans desafiam todo o nosso sistema de gênero e isso causa muita dor, e ficamos felizes pelos avanços que a lutra trans* vem tendo nos últimos anos. Mas são pautas distintas demais e quando você junta duas lutas completamente diferentes em um espaço só, alguém via ficar ofuscado, não vai ter nenhum avanço.”

Comentário: Não creio que são pautas distintas demais. Existem duas frentes em questão aqui: o feminismo aliado trans* (que trata das lutas trans* como aliado, e assim incorpora de maneira solidária o apoio às pautas um pouco mais distintas) e a inclusão das mulheres trans na luta feminista como sujeitos do feminismo no mesmo nível que mulheres cis. Para mim, não deve haver distinção. Mas como já estabelecido, temos uma leitura diferente de gênero.

(8) “Tratam o movimento feminista como a mãe dos movimentos sociais: temos que lutar por todos o tempo todo e esquecer de nós mesmas. O movimento feminista não conseguiu NENHUMA vitória realmente significativa nos últimos anos porque ficamos preocupadas demais lutando pelos direitos dos outros.”

Comentário: Essa parte de que tratam como a mãe dos movimentos sociais eu discordo fielmente. O que pedem é um feminismo solidário que se apresente como um espaço fomentador de outras frentes também. Na luta anti-opressão, o feminismo tem uma vantagem de maior consolidação histórica, e daí vem a responsabilidade de auxiliar, quando necessário, o processo de alavancar outras lutas. Na leitura hegeliana do que é ser revolucionário, isso também pede atenção para a necessidade de superar a lógica da opressão e eventualmente abolí-la em sua totalidade. Portanto, um feminismo que busca reivindicar essa posição precisa ter sensibilidade com essas outras pautas. Tenho dificuldade em aceitar que não tivemos NENHUMA vitória significativa e que isso foi justamente porque estamos preocupadas demais com o direitos dos outros. Eu precisaria de uma intensa elaboração dessa fala para concordar minimamente. O avanço no debate feminista é algo sólido e evidente na sociedade, e assim a luta é fortalecida todos os dias. Acredito que estamos cada vez mais perto de ao menos descriminalizar o aborto no Brasil, e para as feministas apoiadoras da luta das trabalhadoras do sexo, também mais perto de reconhecer profissão e assegurar aposentadoria. A representatividade das mulheres também tem crescido, e o combate à violência é feito abertamente (ainda que extremamente deficiente).

(9) “Quando se juntou a pauta do transativismo, que é necessária e é importante, com a pauta do feminismo, ninguém mais se preocupa em lutar pelo direito ao aborto seguro ou lutar pela erradicação da prostituição, se tornou mais necessário caçar mulheres feministas radicais porque consideram que lutar unicamente por mulheres, pelas nossas pautas ESPECÍFICAS, é transfobia. Enfim, falei demais já, é muito pra processar e tal, qualquer coisa me pergunta. Espero que tenha ficado claro”

Comentário: Eu sou lutadora não só pelo aborto, mas também pela justiça reprodutiva. Isso na verdade implica uma união das pautas trans* em geral com a pauta reprodutiva das mulheres (cis e trans). Não vejo isso como mutualmente exclusivo de nenhuma maneira. Sobre a erradicação da prostituição, como já mencionei, minha linha sex-positive indica uma luta pelos direitos das trabalhadoras do sexo e para que essa seja uma profissão ocupada apenas através da escolha e da autonomia (alguém indagará: mas existe o machismo e a objetificação que faz mulheres pensarem que são livres mas não são. Claro! Não existe autonomia ou escolha puras! O que buscamos é um empoderamento das mulheres em sua autonomia e respeito por suas subjetividades. Porém, papo mais profundo que fica para outro dia. Basta dizer que não sou pela abolição da prostituição, e sim da exploração). Em geral, é equivocado dizer que “ninguém mais se preocupa em lutar” por pautas específicas, pois isso não corresponde à realidade das muitas lutas travadas todos os dias pelos movimentos feministas em sua diversidade. Algumas companheiras de luta considerariam isso até ofensivo ao descartar tanto esforço acumulado simplesmente porque incluímos mulheres trans no nosso meio como iguais. Como já estabelecido mais acima, considero que a exclusão das mulheres trans do conjunto do “nós” em “unicamente por mulheres, pelas nossas pautas ESPECÍFICAS” é sim uma expressão transfóbica, baseado na nossa divergência sobre o que é gênero.

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