CV - ACADEMIC WEBSITE
15 Nov 2014

Guia do aliado militante no feminismo

colinha

Introdução

Primeiramente, esse não é um guia qualquer para homens repensando sua posição dentro do patriarcado e buscando formas de não oprimir. O contexto aqui é particular para homens aliados dentro da militância de esquerda socialista. Há alguns meses eu publiquei um texto denso sobre o risco da política de identidade, do sectarianismo, e buscando promover solidariedade entre lutadoras feministas e homens aliados. Sugeri que não se trata de promover mulheres ao silenciar homens e que não se deve supor que mulheres estão sempre isentas de críticas construtivas sobre como adereçar a luta contra opressão (apesar de serem especialistas sobre suas experiências pessoais, não se esqueçam!). Mas aqui foi meu erro: ensinar mulheres a estender a solidariedade de sua sororidade para toda a miltância sem antes ensinar candidatos a aliados a não oprimir e a serem solidários também. Então aqui coloco algumas reflexões, muitas delas remetem ao texto anterior. Como base, gostaria de estabelecer que o feminismo é algo em formação na consciência e na prática das mulheres e dos homens, mas especialmente na dos homens, pois requer constante auto-crítica. Não é fácil, gostoso, nem confortável ser um aliado feminista. Você, homem (cis e especialmente cis/hetero) terá que abrir mão de muita liberdade para se enquadrar como um bom aliado. Como o texto que aqui apresento não contém os detalhes teóricos e o rigor acadêmico que tentei aplicar previamente, peço que seja tomado como um ensaio. Pretendo sim me aprofundar mais sobre a transformação da práxis do homem aliado em formação, mas as tarefas da vida ainda não me permitiram o tempo necessário para estudar o tema com o apreço que merece.

O que esse texto não é

Apesar do nome “guia,” os parâmetros aqui apresentados não devem ser simplesmente absorvidos como um código de conduta. O objetivo principal é incitar a reflexão nos homens que desejam ser aliados na luta feminista, pois não adianta mudar a prática sem internalizar os fundamentos da nossa luta contra a opressão machista e sexista do patriarcado. Quando útil, também incluo fontes adicionais de reflexão sobre os temas apresentados. Sugiro que eles sejam considerados com atenção, pois aprofundam as discussões que apresento.

Em geral: Quem é o militante aliado na nossa luta feminista?

Minha posição, já defendida, é que o bom aliado é o aliado útil. Ser aliado não é abaixar a cabeça, se calar, e apenas deixar as mulheres tomarem a frente. Apesar de configurar uma doação material de privilégio, essa atitude não constrói muito além disso. O bom aliado é aquele que leva o feminismo a sério e apoia ativamente a nossa luta. Ele pode até fazer críticas construtivas a respeito das minúcias, das atividades diárias, mas sempre de maneira respeitosa e que levanta o programa feminista como parâmetro de julgamento de suas críticas. O militante aliado está sempre em alerta para verificar se seu direito de fala não é abusado para promover falas opressoras ou reproduzir a lógica do senso comum. Ele busca a sensibilidade para com as companheiras, especialmente quando essas relatam suas opressões diárias e tentam adereçar essas opressões na militância. Assim, o militante aliado se solidariza com as companheiras e busca oferecer apoio moral sempre que preciso. A autocrítica é a melhor amiga do militante aliado. Ele sabe que foi socializado para se comportar de maneira machista, pra enxergar sua liberdade como direito nato e não como privilégio garantido pela opressão das companheiras. Assim, ele se vigia, checa seu privilégio, e se abre para as críticas de machismo e sexismo vocalizadas pelas companheiras. Ele também ajuda outros aliados nesse processo e compartilha aprendizados. O militante aliado intervém quando vê outro homem (supostamente aliado ou não) oprimir uma companheira diretamente. Assim, ele doa o seu direito de fala e seu privilégio masculino para se posicionar contra casos de violência e até impedi-los. O militante aliado sabe que seu papel não é proteger, resgatar, ou salvar as companheiras, mas de se demonstrar útil quando necessário. O militante aliado é absolutamente intolerante com a violência sexual, moral, e física das companheiras e demais mulheres na sociedade. Ele luta diretamente contra a cultura do estupro e do machismo e reformula sua linguagem, suas expressões, e até seu tom de fala para não condizer com essa cultura. O militante aliado enxerga a luta socialista revolucionária como uma luta interseccional, em que não haverá justiça social enquanto houver opressão. Assim, ele sabe que a luta feminista, apesar de um ato de ousadia para os homens, deve ser parte de seu próprio projeto revolucionário. Ele enxerga as parcerias entre o patriarcado, o capital, o racismo, a xenofobia, a homofobia, a transfobia, e demais fontes de opressão. Ele sensibiliza com a diversidade de opressões e não invisibiliza a diversidade de experiências das companheiras.

1. O aliado militante é bom ouvinte

Para mim, saber ouvir é uma das habilidades mais difíceis para o aliado desenvolver e, portanto, uma das mais importantes em qualquer situação. O aliado foi socializado para falar, por causa de sua posição de privilégio dentro do patriarcado. Foi também socializado para prestar mais atenção na fala de quem ocupa a mesma posição. Na política institucional, isso é um problema grave. Mulheres ainda lutam pela paridade representativa em um ambiente altamente masculinizado. O próprio ambiente político gera uma hierarquia de importância de fala e assim abre mais espaço para as vozes dos homens. Na militância socialista, isso não é diferente. Grandes revolucionárias mal são lembradas, pois as contribuições dos companheiros homens eram valorizadas desde o princípio. Quando tratamos da intelectualidade política, não é diferente. São pouquíssimas as obras socialistas publicadas por mulheres, não porque mulheres não se interessam pelo tema e o desenvolvem com clareza e rigor, mas porque somos uma militância que normaliza a contribuição de companheiros e minimiza as vozes das companheiras. Trata-se de um erro histórico que precisamos corrigir. A luta feminista socialista é uma luta pela abolição da opressão de todos, mas foca no fim da opressão das mulheres. Assim, é natural que as mulheres tenham o poder prioritário de fala sobre sua luta. Aos aliados cabe primeiramente ouvir, e fazê-lo atenciosamente. Ouvir, refletir, internalizar. Além do mais, ser bom ouvinte é uma qualidade para o aliado tanto nos espaços de luta quanto no seu dia a dia. Isso significa valorizar as contribuições das colegas na sala de aula, respeitar opiniões divergentes de amigas sobre temas que são normalizados como masculinos (ex: esportes), e sempre verificar se não está silenciando uma mulher por causa de seu tom de voz, sua presença, seu nome, ou outro privilégio patriarcal. De maneira prática, isso pede também que o aliado não interrompa a companheira durante sua fala, que não murmure, faça piadas, ou converse com o companheiro do lado durante a fala, e que esteja particularmente atento para críticas ao machismo e ao sexismo proferidas pelas companheiras. Saber ouvir não significa se abster de sua fala, apesar de ser necessário em certas ocasiões, mas valorizar a fala da companheira como algo importante que é. Significa refletir se o seu discordar do conteúdo da fala da companheira não resulta de julgamento machista antes de fazer qualquer crítica construtiva. E claro, saber ouvir implica levar o que as companheiras falam a sério de forma a ajudar a construir maneiras de adereçar ou contribuir sobre o tema.

2. O aliado militante não abusa do seu direito de fala

Anteriormente, eu argumentei que o papel do aliado da luta feminista não é simplesmente se calar e concordar com tudo que falamos e fazemos de maneira mecânica. Um relacionamento dialógico dentro da militância supõe que todas e todos têm algo para contribuir. Os homens aliados, por exemplo, refletem constantemente sobre seus privilégios e têm muito a dizer sobre como agir pedagogicamente na transformação de outros homens. Os homens aliados também têm muito a contribuir sobre metodologia de ação socialista. Nas construções feministas, em especial, os homens aliados, apesar de ouvirem mais do que falarem nesse contexto, podem contribuir de maneira respeitosa sobre minúcias de ação e até intervir a respeito de ideias que consideram menos frutíferas e eficientes. Porém, porém, porém… o direito de fala do aliado não é inalienável, irrestrito, ou de conteúdo livre. Essas limitações devem ser consideradas em dois contextos: A) Espaços mistos de construção coletiva socialista A construção coletiva do projeto socialista trata de várias lutas ao mesmo tempo, as quais exigem toda a dedicação das mulheres e dos homens. Esse espaço, portanto, deve ser ativo, criativo, e o mais produtivo possível. É de vital importância que ele seja também um espaço seguro, em que nenhuma ofensa, assédio, discurso excludente, racismo, machismo, xenofobia, homofobia, transfobia, capacitismo, e demais sejam tolerados. Falas com esse tipo de conteúdo explicito devem ser censuradas e o locutor ou a locutora devem ser sancionados de forma pedagógica (i.e.: evitando a lógica da opressão e buscando a reflexão de quem transgrediu em sua fala). Existem também ocasiões em que os aliados abusam do seu direito de fala. O que isso quer dizer? De forma direta, o abuso ocorre quando os aliados não são igualitários em sua fala, utilizam sua fala para “mansplain” companheiras (termo popularizado para se referir ao homem que utiliza seu privilégio para invalidar a opinião/conhecimento da mulher) , discutem de maneira agressiva e/ou desrespeitosa, ou rebaixam o direito de fala das companheiras. É claro que um espaço de construção política pode resultar em discussões vívidas e calorosas, mas os aliados militantes devem estar sempre atentos para não reproduzir uma agressividade machista em suas intervenções, especialmente em intervenções críticas e opositoras. O segredo é, ao escolher as suas palavras, verificar se elas, seu tom de voz, e sua linguagem física passam no teste da opressão. O aliado então deve ser cauteloso e sempre se perguntar se existe uma maneira mais cordial de expor uma crítica, especialmente ao se tratar de críticas aos argumentos das companheiras. Enfatizo também que críticas pelos aliados devem ser feitas sempre em direção aos argumentos e não às companheiras pessoalmente. Mesmo quando existem laços de companheirismo e amizade, os aliados não devem entendê-los como liberdade para se dirigirem às companheiras descuidadamente. (Lembro também que como mulheres não estamos isentas de reproduzir linguagens físicas e verbais que remetem à masculinidade tóxica e ao machismo, já que somos socializadas para igualar poder de fala com masculinidade. Então o lembrete, mesmo que de forma bem mais amena, também é útil para nós mesmas). B) Espaços mistos de construção feminista Esses espaços são prioritários para as mulheres, já que elas têm experiência direta com a opressão e são sujeito histórico e ontológico do feminismo. O direito de fala para os homens nesse contexto ainda deve existir, advogo, mas de forma extremamente cautelosa. Como estabeleci no texto anterior, existe um grande perigo em promover a noção de autoridade epistêmica do oprimido, já que isso retira a capacidade de intervenção teórica, de auto-crítica, e de reflexão necessária para não apenas se opor à opressão mas também construir um mundo livre de opressões. Nesse contexto, acredito que nós mulheres podemos sim produzir erros de análise de conjuntura e de metodologia, e que intervenções dialógicas a esse respeito devem ser bem-vindas tanto de outras companheiras quanto de aliados. Mas é aqui que os aliados devem ser ainda mais cautelosos, pois eles não possuem a experiência necessária para entender por completo certos temas do feminismo (e, várias vezes, ainda não se desprenderam da maneira como se beneficiam de algumas opressões sofridas pelas companheiras). Intervenções dos aliados nesses espaços devem seguir as mesmas precauções já enumeradas, além da demonstração de humildade caso sejam sancionados, o que poderá ser mais comum nesse caso. É também importante lembrar que qualquer “mansplaining” a respeito da opressão é uma atitude em si mesma opressora. Isso não significa que caso uma companheira receba uma atitude do aliado como machismo, por exemplo, o aliado não possa interpelar. Já me posicionei sobre isso anteriormente, mas repito aqui que nem sempre o aliado percebe o que está fazendo e nós mulheres precisamos, dentro dos limites, oferecer o benefício da dúvida e agir pedagogicamente em vez de simplesmente acusar e silenciar. Precisamos também valorizar críticas construtivas (expressadas respeitosamente) sem rejeitá-las simplesmente porque a crítica é comunicada por um aliado e não uma companheira. Então, caso o aliado veja necessidade de interpelar, que seja de forma reflexiva, respeitosa, e que compreenda a experiência da companheira (supondo aqui que a experiência é genuína e não fruto de oportunismo político e argumentativo).

3. O aliado militante faz críticas construtivas sem linguagem opressora

Continuando o tema da fala do aliado, reitero a importância da linguagem escolhida. Um aliado não deve, em hipótese alguma, proferir uma crítica construtiva acompanhada de linguagem opressora. Frases como “o que você diz é muito ignorante,” “você está falando besteira,” “não é possível que você não enxerga isso!” são comuns em discussões calorosas, mas bastante opressoras quando proferidas por um locutor homem, já que se encaixam na experiência coletiva do machismo. Não preciso nem dizer que termos que remetem diretamente à opressão de gênero devem ser repudiados e, caso proferidos, sancionados coletivamente (i.e.: “mulher não sabe dessas coisas,” “você é tão sensível,” etc). Existe sempre uma maneira mais dialógica de fazer uma intervenção crítica sem agressividade e ânimos exaltados. Esse é o melhor ambiente para críticas de aliados. Também é importante que o aliado não utilize uma linguagem relativizadora, que diminua a opressão sentida pela companheira em favor de uma medida abstrata (ex: “não estou te oprimindo, porque faço isso o tempo todo com outras companheiras e elas não se importam”). Não é bem assim. A realidade é que mesmo atitudes não opressoras podem remeter a companheira a uma experiência de opressão devido ao contexto, e é preciso sensibilidade, e quando necessário, se abster para não piorar a situação. Dito isso, e ao risco de me repetir, críticas respeitosas que possuem respaldo dentro da teoria e da experiência feminista devem ser levantadas para o bem da luta coletiva. Nesse caso, lembro que nossa luta se baseia na práxis, e não apenas teoria ou prática, e qualquer ideia política, por mais radical que seja, precisa ser contextualizada de maneira a não passar por cima das experiências das companheiras. Podem também haver situações em que seja melhor que uma companheira levante a crítica primeiramente, e caso necessário ser complementada pelas intervenções dos aliados. Isso varia de acordo com a solidariedade e o nível de diálogo aberto estabelecido no ambiente de militância (Internet e redes sociais em geral costumam oferecer o oposto, então os aliados precisam ser mais cautelosos nesses espaços, pois mesmo linguagens respeitosas podem ser entendidas como opressoras e de fato afetarem as companheiras). Para mais entendimento sobre o tema, convido a leitura do meu texto anterior sobre o feminismo, pois não podemos cair na armadilha de que toda crítica é opressora só porque o locutor é homem, mesmo sendo um homem aliado que constrói a luta seguindo nossos passos. Eu me oponho abertamente ao separatismo de gênero e sexo na luta feminista e já discuti isso a fundo (ainda mais porque tem muita companheira que cai na transfobia por causa disso também, inclusive companheiras que são solidárias com a luta LGBT ou são LGBT mas utilizam linguagem trans-excludente por igualar opressão com o cromossomo Y – não sou LGBT e me recuso a ficar calada quando vejo uma companheira LGBT ser transfóbica, mesmo a companheira LGBT argumentando que eu não tenho direito de fazer a crítica por eu ser mulher hétero! Será necessário que eu contate as companheiras que me ensinaram pacientemente sobre transfobia para que elas façam a crítica, então? Não parece contra-intuitivo? Companheiras, tentem não confundir crítica necessária com opressão!). Não podemos retornar aos erros do feminismo sectário das décadas 70/80 por simplificar a opressão patriarcal como fonte da guerra dos sexos. A consciência crítica e seus instrumentos pertencem à luta e não são possessões exclusivas do grupo de oprimidos, já que deve ser permitido aos aliados repassar as lições que aprendem diariamente sobre opressão com quem é oprimido. [Minha posição é bastante contrária ao que defendem linhas do feminismo radical (radfem) que elegem mulheres normativas como únicas participantes do feminismo e preferem a exclusão, o isolamento, e o confronto em vez da construção de uma sociedade sem opressões. Se uma companheira acha que a função do feminismo é lhe proporcionar com um grupo de amigas (especialmente mulheres cis), serei a primeira a criticar! Feminismo é luta, e luta pede diálogo e abertura para críticas.] Há interações ainda sub-desenvolvidas entre o feminismo e outras frentes de luta, como o abolicionismo penal/prisional, a auto-determinação como preservação de certas práticas indígenas, práticas/culturas sexuais não-normativas (e outros temas da perspectiva sexo-positivo como pornografia e o trabalho do sexo), e até mesmo a divisão do fardo doméstico. Então é natural que companheiros possam intervir criticamente através desses temas. Porém, existe a maneira opressora e a não-opressora de comunicar uma crítica ao pensamento feminista das companheiras. A maneira opressora não somente envolve a linguagem utilizada, mas também uma argumentação que coloca uma luta à frente da outra, minimizando as prioridades das companheiras (as quais são conjunturais também). O objetivo, acredito, não é ensinar algo novo ao feminismo, mas encontrar a junção onde o caminho do feminismo socialista revolucionário se encontra com essas outras frentes. O aliado também deve vigiar para não oprimir através de uma vantagem física. Se o aliado é um homem alto e a companheira é uma mulher baixa, o aliado deve tomar cuidado para não utilizar da sua estatura para impor sua presença em meio a uma discussão. Ele deve escolher bem seu tom e volume de voz ao conversar/discutir com mulheres, e observar que gestos usa. A advertência de Luciana Genro para Aécio Neves nos debates presidenciais de 2014 não foi por acaso.

4. O aliado militante pergunta como ser útil

Da série: parece óbvio, mas não é. Não é óbvio, porque as reclamações das companheiras de que muitos aliados se enxergam como cavaleiros em suas armaduras reluzentes prontos para nos salvar do patriarcado não são fruto de uma imaginação abstrata. Aliados muitas vezes se comportam exatamente assim, como se tivessem a resposta pronta para a revolução feminista. Então, a melhor dica que tenho a oferecer é que aliados se disponibilizem para a luta feminista de acordo com as necessidades e prioridades das companheiras. Muitos aliados são pessoas extremamente proativas, prestativas, e ótimas lideranças em tempos conflituosos. Porém, é importante que esses aliados se mantenham alertas para o risco de atropelarem o ritmo, a metodologia, e a prioridade estabelecida pelas companheiras. O que pode parecer uma ideia boa, talvez acabe desconstruindo o ambiente solidário mesmo se a tarefa realizada pelo aliado for bem feita. Canais de comunicação abertos são essenciais!

5. O aliado militante não duvida ou desdenha das experiências de opressão das companheiras

As experiências de opressão que nós mulheres temos em relação ao patriarcado são diversas por muitas razões. Dependem das nossas múltiplas subjetividades (i.e.: ser mulher trans e negra é diferente de mulher cis que mora na favela). Essas multiplicidade garante que soframos diferentes opressões (diferentes, não maiores ou menores, ou de maior ou menor importância!). Isso significa que cada mulher lida com sua opressão de sua maneira, então o aliado não pode supor que se a companheira agiu de forma x ou de forma y, nem foi opressão ou ela fez tempestade em copo d’água. Ser bom ouvinte implica levar relatos de opressão a sério (mais uma vez, a não ser que seja reconhecido coletivamente que um relato é falso e oportunista – casos raríssimos que não devem ser tomados de base nunca!). Então aqui vai a dica: os aliados devem acreditar nas companheiras e no grau de seriedade que elas pedirem dos aliados. Acreditar na companheira que conta do estupro na festa da universidade, acreditar na companheira que conta do machismo da mãe, acreditar na companheira que relata o quanto é silenciada pelo professor, acreditar na companheira que prestou queixa de assédio na delegacia e foi maltratada pelo delegado… Isso também requer nem pensar em fazer insinuações ou perguntas maliciosas quando companheiras relatam opressão. Se a companheira conta que foi seguida no campus, nunca pergunte o que ela estava vestindo. Se a companheira levou um tapa do namorado, não interessa se ele estava bêbado ou sóbrio. Se a companheira reclama do assédio verbal dos trabalhadores da construção civil perto de sua casa, não é seu papel sugerir que ele modifique sua rota ao trabalho. Esse tipo de informação só deve ser relevante se a mulher decidir que é relevante, e se ela quiser sugestão ela vai pedir.

6. O aliado militante não estupra e não assedia mulheres

Da série: parece óbvio, mas não é. O que mais estraga a solidariedade entre homens e mulheres na militância é o fato que, mesmo julgando-se homens esclarecidos investidos na justiça social, tem homem que deveria ser aliado mas estupra! Violência sexual é um dos temas mais sérios dentro da militância e não deve ser tolerado em nenhuma instância. O aliado militante não pode tirar vantagem de celebrações, álcool, ou outras substâncias para “justificar seu erro.” Nem pode aproveitar dessas situações para assediar as companheiras verbalmente e depois dizer que foi apenas uma brincadeira. O aliado militante trata as companheiras com respeito no âmbito físico e moral. Enfim, o aliado militante que estupra, agride, e/ou assedia, não é aliado, é opressor. Segue então a necessidade da militância em geral, especialmente as companheiras, trabalharem em conjunto para suprir as necessidades da companheira agredida de forma a considerar o que pode ser feito para a reabilitação do militante opressor e quais vias formais devem ser procuradas. O aliado militante não assovia para mulheres, nem de brincadeira. Pela abolição do fiu fiu!

7. O aliado militante não faz ou ri de piadas objetificadoras e sexualizadas

Nesse sentido, o aliado militante deve também procurar não contribuir para a cultura do estupro de forma indireta. Não objetificar as companheiras é uma tarefa simples, mas muitos falham em sua execução ao priorizar o humor (e a “zueira”) em vez do princípio do respeito físico e moral às companheiras (aliás, o mesmo vale para as companheiras que dão o “troco” objetificando aliados, como se fossem isentas – a objetificação nos oprime muito mais que aos homens, certo, mas não deixa de ser um instrumento desumanizador do patriarcado. Se sua “zueira” utiliza um instrumento de opressão, ela não vale a pena). Aqui incluo também a necessidade de ser intolerante com a cultura popular que objetifica mulheres (filmes, músicas, etc). A melodia é cativante, mas letra de Blurred Lines, música de sucesso de anos atrás faz apologia à violência contra a mulher, portanto melhor evitá-la no seu repertório (Veja a paródia feminista aqui! – objetificação masculina utilizada como protesto estético). O mesmo podemos dizer de Trepadeira do Emicida. Dito isso, o aliado militante não participa de “conversa de vestiário” sobre as companheiras.

8. O aliado militante não tenta pautar as prioridades de luta das companheiras

A luta feminista é gigante. Gigante. Nós lutamos contra a violência de gênero, contra o machismo, contra a cultura do estupro, contra o controle de nossos corpos e nossa autonomia sexual, contra a indústria que determina o que devemos vestir e de que tamanho devemos ser… Lutamos pelos nossos direitos reprodutivos (inclusive o direito de não reproduzir), pela liberdade de voltar sozinha pra casa, pela paridade na representação política, por empregos menos precários e salários compatíveis com nossas atividades, pelo respeito devido a mulheres em posições de liderança… Não dá pra pautar tudo ao mesmo tempo, embora continuaremos tentando. Tem dias que uma luta agita mais que a outra. Tem dia que optamos pela pequena vitória imediata enquanto recobramos a energia para continuar lutando em uma batalha enorme que só será vencida a longo prazo. Não cabe ao militante aliado determinar onde empregaremos nossa energia hoje. O aliado pode até nos lembrar de não esquecer uma frente de luta, mas a ordem do dia somos nós que decidimos.

9. O aliado militante coloca consentimento acima de tudo em suas relações

Consentimento é tão importante mas tão pouco definido. Isso cria vários desafios devido à natureza incerta e lúdica das interações românticas e sexuais entre seres humanos. Porém, nosso dever como militantes esclarecidas é impor nosso direito de consentir ou negar consentimento. Para os homens aliados, isso implica sempre buscar consentimento explicito. E aqui eu dou de cara com uma parede a qual ainda não descobri como atravessar. Existe um desafio especial ao tratar de consentimento em contextos em que o poder de consentimento é incerto, como o de intoxicação. Já participei de vários debates sobre o tema: se você não tem raciocínio suficiente para dirigir, você tem raciocínio suficiente para consentir ao sexo? Pergunta relevante, mas me falta uma resposta concreta. Parte da luta contra o moralismo sobre o corpo das mulheres implica a liberdade da mulher beber até cair sem passar por tratamento/julgamento diferenciado dos homens que bebem até cair. Álcool tem, para muitos, um papel importante ao retirar certas inibições e contribuir para interações entre indivíduos, e isso não deve ser negado. Deve existir um equilíbrio em que a mulher possa usufruir da sua escolha de beber e da sua autonomia sexual ao mesmo tempo. Enquanto esse equilíbrio não se faz evidente, tenho uma sugestão de método colaborativo. Para as companheiras, avalie seu próprio poder de consentimento previamente e peça ajuda de outras companheiras nessa avaliação, especialmente àquelas que lhe acompanharão à festa ou ocasião em que irá beber. Para os aliados, busque consentimento explícito sempre. Se a mulher disse não, ela disse não. Se ela disse sim, verifique mesmo assim se houver alguma intoxicação envolvida. Essa sugestão ainda é muito falha, mas já vi muitos resultados positivos dessas pequenas mudanças na militância. De qualquer forma, consentimento é um tema pessoal, e você saberá lidar melhor com ele. Para os aliados, o importante é lembrar que é melhor pecar pelo lado de preservar a integridade física e moral da mulher do que correr o risco de agredir por não receber consentimento válido e claro.

10. O aliado militante não tem escolha de ser aliado em umas lutas mas não em outras

Se o aliado não concorda com uma abordagem de luta do feminismo ou com alguma prioridade do movimento, ele tem a opção de se abster. Se ele concorda mas possui críticas construtivas, ele tem a opção de fornecê-las seguindo os requisitos que já mencionei. Mas o que o aliado não pode fazer é lutar junto com as mulheres por uma demanda, e depois se opor diretamente a elas em outra. Isso não é ser aliado do feminismo, é simplesmente colaboração seletiva. O mesmo vale para “aliados” que acham que uma frente de luta feminista não vale a pena ou não deveria ser importante. Discordância sobre metodologia pode gerar pontos válidos, mas discordância sobre importância cabe às mulheres (vide discussão sobre não pautar prioridades das companheiras).

11. O aliado militante não julga o corpo e as vestimentas das companheiras

O aliado que compara as características físicas das companheiras não é aliado, é opressor. O aliado que faz comentários sugestivos e maliciosos sobre o vestido de uma companheira não é aliado, é opressor. O aliado que dá palpite sobre a imagem física das companheiras seguindo um padrão externo não é aliado, é opressor. Nosso corpo, nossas regras.

12. O aliado militante não minimiza as vitórias históricas das mulheres

As universidades públicas brasileiras possuem uma certa paridade de representação dos gêneros, mas não foi sempre assim. Tampouco é assim em certos cursos. Então quando a companheira fala da importância da luta contra o machismo no campus, o aliado deve levar isso a sério e buscar contribuir nessa luta, em vez de falar que não é bem assim (basta olhar a cultura do trote universitário). Hoje pode parecer fácil, mas muitas vitórias para as mulheres vieram depois de muita luta e sacrifício. O que hoje pode ser paridade de privilégio, na verdade é uma vitória que o patriarcado sempre tentará subverter, minimizar, ou tirar de nós (ex: basta ver estados dos EUA que permitem o aborto, mas impõe uma série de restrições como a própria inexistência de mais de uma clínica de aborto no estado).

13. O aliado militante inclui as companheiras em todos seus espaços de militância

Esse é um lembrete sobre ser bom ouvinte e não abusar do direito de fala. Mulheres estão à frente da luta feminista, mas devem estar bem representadas em outras lutas também. Feminismo não é o único forte das mulheres e não pode ser usado para povoar outras frentes com lideranças exclusivas de homens. Algumas organizações da esquerda buscam priorizar a paridade ao garantir que reuniões só sejam feitas se o quorum de presença das companheiras for alcançado, facilitando também para que reuniões e eventos sejam agendados somente após consultar a disponibilidade das companheiras. Paridade é coisa séria!

14. O aliado militante preserva ativamente a integridade física e moral das mulheres

Precaução e intervenção. O aliado militante procura evitar colocar companheiras em situação de risco de violência ou agressão, especialmente no que diz respeito à sua própria interação (consentimento!). O aliado militante também se faz pronto para intervir quando vê que existe risco de violência ou agressão por parte de um homem opressor. O exemplo clássico é o cara do lado que está encoxando uma menina dentro do ônibus lotado. Seu papel é ser solidário, não de forma paternalista, não porque você é homem, mas porque você é aliado! Aliado não permite violência contra a mulher!

15. O aliado militante tem humildade para aprender com as companheiras

Embora não exista autoridade epistêmica nata, as mulheres são sim especialistas em sua opressão de maneira geral. Obstante pequenos desentendimentos e enganos, as companheiras podem identificar que atitudes dos aliados oprimem e alertá-los. Aqui levo em conta que já estabeleci minha posição que nós mulheres militantes devemos ser cuidadosas para não interpretar ignorância, prestatividade, proatividade, e até mesmo entusiasmo como machismo, para que os casos concretos de machismo não seja diminuídos por comparação. Sobre agressão, há poucas dúvidas. Sobre machismo, a discussão se complica, pois existem divergências entre nós mesmas sobre o que companheiro X disse era machista ou simplesmente fora de contexto, por exemplo. A importância é propiciar o benefício da dúvida e que aliados compreendam cada situação como uma oportunidade de aprendizado. Por isso enfatizo o tratamento pedagógico do machismo verbal e de atitude dentro da militância, já que considero o método mais produtivo e menos cansativo que, por exemplo, escrachos (os quais possuem seu papel em ocasiões e contextos determinados ao lidar com opressores ativos).

16. O aliado militante não confunde cordialidade com cavalheirismo

Esse tema gera bastante confusão. A maneira mais simples de lidar com isso é perguntar a si mesmo se você ofereceria o mesmo gesto cordial para um companheiro e não somente para companheiras. Também é importante perguntar para a companheira se aquele gesto lhe ofende. Vale ressaltar que o contexto faz toda a diferença aqui. Ajudar a companheira com as compras do supermercado ao ver que uma sacola está rasgando e outra está para cair é cordialidade, especialmente após perguntar: posso lhe ajudar? Porém, tomar uma sacola da mão da companheira simplesmente para carregar a sacola para ela é cavalheirismo e cavalheirismo é um nome enrustido para machismo.

17. O aliado militante sempre pergunta para as companheiras quando em dúvida sobre sua práxis de solidariedade

Depois dos 16 pontos acima, gostaria de pensar que ficou óbvio. Se o aliado está preocupado se sua atitude oprime ou não, ele deve sempre perguntar. Isso estabelece ponte para o diálogo e pode prevenir futuros desentendimentos.

18. O aliado militante sabe que é aliado do feminismo e não sujeito do feminismo

Tenho enormes criticas ao termo do protagonismo, o que tomou grande parte do texto anterior. Fica aqui apenas o lembrete que discussões sobre protagonismo a parte, o feminismo é a luta pela abolição da opressão do machismo, sexismo, desigualdade de gênero e outros instrumentos do patriarcado. Como atingidas diretamente por essas opressões, as mulheres são sujeito do feminismo e devem estar à frente dessa luta. O medo do homem aliado querer “protagonizar” a luta é real não porque esse protagonismo é possível além da preocupação do empoderamento liberal, mas porque tem aliado que se confunde sobre seu direito de influência sobre a pauta feminista. Peço aos aliados que não se preocupem, pois as companheiras sabem o que estão construindo, mesmo estando nós mesmas em um processo de formação política e aprendizado diário. Seu entusiasmo é bem-vindo, apenas aja com moderação e respeito nas suas intervenções.

Agradecimentos sinceros à minha irmã de luta Beatriz pelo debate e pelas sugestões.

Feminism • Português • Uncategorized Comments Off on Guia do aliado militante no feminismo